sábado, 29 de novembro de 2014

ESPALHA BOSTA

Eu, o espalha bosta,
O que nasceu para a dissidência,
Para desafinar no coro dos acomodados,
Semeando dúvidas, procurando respostas.

Eu, o impróprio à quietude, à placidez
Das águas mornas e sem ondas, paradas,
Sem riscos, ridículas em sua monotonia.

Eu, o que só existe destoando,
Atrapalhando tudo,
Invertendo a mão,
Contaminando o resto.

Eu, menstruação na lua de mel,
Gargalhada em velório,
Culto evangélico no inferno,
Um arroto no restaurante de luxo.

Eu, o que atravessa o ritmo e a estrada,
O que chove no piquenique alheio,
Um orgasmo precoce no colo da donzela,
Nasci para incomodar, para acordar marasmos,
Apontar a nudez do rei, detonar os quietinhos.

Ojerizam-me as reses apascentadas,
Em formação no rebanho,
Submissas ao cajado do pastor,
Votando no candidato indicado
E fazendo tudo o que o seu mestre mandar.

Ah, bichinho de estimação dos donos da gente,
Instrumento de perpetuação do que aí está,
Levanta! Sai da catacumba que você construiu,
Cômoda e aparentemente inexpugnável morada.

Venha comigo, vamos sacanear o mundo,
Ficar nu na praça, tirar meleca na esquina,
Mostrar o pinto para a beata, e rir, rir muito,
De tudo e de todos os que rirem de nós,
Até você entender que se é um espalha bosta
É porque o bosta não é você.

Francisco Costa

Rio, 24/11/2014.

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