quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Acaso sabes
O que é discordância
Dissonância,
Contradição?

Examina a distância
Entre meu cérebro
E meu coração.

Francisco Costa

Rio, 16/10/2013.

ADOLESCENTE

Agora rodopiamos no salão,
Rostos colados, afobados,
Sem coragem pra declarações.

A orquestra insiste nos acordes
Que nos embalam sonhos
Presos em nossas respirações.

Ensaiei dizer te amo, mas calo,
Tímido e ruborizado, calado
Pelo teu cheiro e teu calor.

Agora a vontade de beijar
E apertar e fazer-nos uno,
Um só em rodopio no salão.

Por fim a coragem mata o medo
E vou soletrar com todas as letras:
Eu te amo, mas a música terminou.

Francisco Costa

Rio, 23/10/2013.
Alguém viu o meu lirismo por aí?

Eu o perdi ontem,
Numa discussão política,
Com homens que cultuam a guerra
E fazem da violência matéria prima
Para preencher os seus dias.

Repetem velhos discursos
De dias sombrios e mortos,
Esperando sepultura.

Vítimas de ideia única,
Querem impor pelas armas
O que os corações não entendem.

Com eles perco a paciência,
Entorno-me azedume no chão,
Escorrendo corrosivo e nervoso.

Alguém viu o meu lirismo por aí?

Francisco Costa

Rio, 24/10/2013.

COISA DE BRASILEIRO

Brasileiro sim,
De muito e com muito orgulho,
Sem síndrome de “vira latas”
E complexos herdados,
Nascidos da submissão imposta.

Brasileiro sim,
Talhado na exploração e no saque,
Esculpido com o cinzel da carência
Sempre posta como refeição.

Brasileiro sim,
Diferente e diferenciado
Porque entre novenas e tamborins,
Despachos e pastores,
Escopetas e floradas nos jardins.

Brasileiro sim,
O que dorme sobre minério e petróleo,
Amanhece fauna e flora, entardece
Mananciais de água e ouro,
Espelhado na cobiça internacional.

Brasileiro sim,
Em réquiem e samba,
Em alexandrinos e cordéis,
Mastigando poesia
Para rimar exigências.

Brasileiro sim,
De bombacha e chimarrão,
Montado no jegue ou no avião,
Bebendo pó na seca ou na mansão,
Na praia ou na boleia do caminhão,
Falando manso ou agalopado,
Com sotaques dos mais variados
Fazendo a unidade dessa nação.

Brasileiro sim,
Que chora com Hino Nacional,
Aplaude em velório,
Perde a voz no gol da seleção,
Amanhece sempre feliz,
Quase irracional.

Brasileiro sim,
Nas passeatas e concentrações,
Rimando Brasil e puta que pariu,
Pondo força e determinação no que diz,
Exigindo-me outro, maior e melhor,
Com a dimensão do meu país.

Brasileiro sim,
Em raiva e revolta
Porque brasileiros iguais a mim
Insistem na síndrome, no engodo
De simples arremedo, plágio,
Imitação barata
Dos que nasceram longe
E se nutrem do nosso sangue
E cospem em nossas caras.

Caminha, Brasil,
E atropela os que atrapalham.

Francisco Costa

Rio, 17/10/2013.

PENSANDO COM A CABEÇA DE CHOMSKY

Eles acreditam que te alimentando com o nada
Nada terás na cabeça, e te oferecem Faustão
E Xuxa, Ana Maria e Gugu, Luciano e Angélica.

Eles sabem que atemorizados, cedemos,
E então anunciam a iminência de comunismo,
Apocalipses, final dos tempos, desgraças mil
A granel, no varejo e no atacado, só desgraças.

Eles sabem que não podes pensar senão olhas
E olhando enxergas, então fazem futebol,
Te levam aos cultos, promovem a violência
A pão nosso de cada dia, como se irremediável.

Mas há que te desviar do essencial, do eixo,
E então buscam políticos culpados, partidos
Culpados, desviando a tua atenção do sistema,
O responsável pelos políticos culpados,
Pelos partidos culpados, pela culpa, incutindo
Em ti a culpa do sistema: és enjeitado, sobra,
Preterido, não inserido, carente periférico?

Culpa tua: não estudou, não trabalha o bastante,
És negro, nordestino, de má família, negligente,
Ou Deus sabe o que faz, não chegou a tua hora.

Haverá sempre um motivo para jogarem sobre ti
A culpa a qual querem que assumas, alienado
Repetindo o dito na tevê, no rádio, na igreja.

A escola pouco te serve e serviu. Eles sabem
Que se tivessem te educado, dito a verdade
Hoje não serias mais um a culpar tudo e todos
E isentar o sistema que os faz donos de tudo,
Até de ti discursando para defender o posto
Como refeição única e obrigatória: servir a eles.

Tu pensas que te conheces.
Eles te conhecem melhor.

Francisco Costa

Rio, 22/10/2013.
Emancipadas de seus encantos
As fadas perdem as asas
E o brilho no olhar,
Tornando-se lagartas
Prisioneiras de casulos,
Com a resignação dos sábios
Sabendo que adiante
Serão fadas outra vez.

Há tempo de voo e de recesso,
De lagarta e de fada.

A pressa e a ansiedade
Só servem para fazer
Lagartas nervosas
E fadas tristes.

Francisco Costa

Rio, 23/10/2013.
Entre teclas e teorias
Enuncio minhas dúvidas,
Sem entender porque
Borboletas conseguem
Voar na chuva.

Entre a chuva e a solidão
Minha dor habita
Borboletas.

Entre borboletas, espio.

Francisco Costa

Rio, 16/10/2013.
Entre versos e tempestades
Alternam-se, distraídas,
Conhecidas impressões.

São solares visões
De dias novos
Amanhecendo
Entre sorrisos
E saciedade.

Imunes aos sonhos
Os déspotas permanecem
Cegos, em combate

Às multidões caminhando
Sobre o chão coberto
De asfalto e esperança.

Francisco Costa

Rio, 17/10/2013.

MATARAM A INFÂNCIA

Sim, o apocalipse já aconteceu
E o mundo já acabou.

O mundo em que vivi não tinha micróbios,
Partilhávamos pratos e talheres, frutas,
De boca em boca, sem óbitos,
E água filtrada só na moringa de barro,
Revestida de limo por dentro.

Os meninos tomavam banhos de chuva,
Imunes a espirros, pneumonias e viroses
(os vírus não viviam na chuva e o contágio
Ainda não habitava na ignorância de acreditar nisso).

O sexo não era intermediado por preservativos
E as mulheres tinham cheiros individuais,
Sem a padronização dos desodorantes íntimos.

Pescávamos em valas infectas,
Inundando potes com peixinhos e bosta
E não morríamos disso.

Transgressores dos ditos pelos pais,
Violávamos cercas e escalávamos muros,
Na busca do fruto mais doce,
Da carreira mais divertida, da raiva
Do dono do pomar se desfazendo em pragas.

Roubávamos beijos
E descrevíamos o sexo que nunca fizemos,
Entre bolinhas de vidro, papel e bambu no céu
E apelidos criativos, irritantes, com troco.

Cortes nos pés, unhas esfaceladas, sangramentos
Eram estancados com saliva e caretas,
Sem interrupção do jogo ou substituição
Do contundido mancando no caminho do gol.

Depois o esporro materno, o banho da tarde
E as cadeiras nas calçadas, as famílias reunidas,
Comentando o trivial variado.

Agora os meus netos, imunes ao mundo,
Teclam e assistem televisão,
Levam o mundo no celular
E se acreditam na infância.

O mundo já acabou a não avisaram a eles.
O apocalipse que esperam está na tela
E os micróbios ameaçadores
Os contaminam na publicidade.

Eu queria sorrisos,
Eles querem dinheiro.

Eu esperava o futuro,
Sem saber que meus netos
Não teriam as vacinas
Contra a violência e a solidão.

Francisco Costa

Rio, 16/10/2013.
Me escrevo e reescrevo
Tentando me encontrar.
E quanto mais me digito
Mais me entendo mero
Sinal gráfico perdido
Num oceano de palavras.

Francisco Costa

Rio, 16/10/2013.
Menino disfarçado em rugas,
Com o corpo cansado
E algumas mazelas existenciais,
Retroajo às calçadas da pobreza
Em subúrbio carioca, cenário
Propício a felicidade impondo
Corridas, gols, meninas, sorrisos,

E descubro que me deixei lá.

Francisco Costa

Rio, 24/10/2013.

MEU POEMA

Que sendo duro como pedra,
Flutue como algodão,
E traga em si todos os mistérios.

Que umedeça os lábios da moça
E se faça brinquedo
Nas mãos delicadas das crianças,
Como cartas de amor em garrafas,
De destinos aleatórios nos mares.

Longo o bastante para que se defina
Mas não canse. Curto como o dia,
Intervalo de lucidez no sono.

Justo como a saia da moda,
Mas confortável como um alento
Dito diretamente ao coração.

Que sublime toda contrariedade
E disperse preocupações,
Um lampejo de sol tórrido
Em momento de inverno.

Um poema ponte entre palavras
E a essência do homem,
Esse poema de carne contrariada
Que se auto declama finitude
Rasgando limites.

Um poema,
Só um poema,
Não mais.

Francisco Costa

Rio, 22/10/2013.
Na atmosfera turva
Ideias duelam.
Imune aos assuntos
O tempo observa.

Amanhã de manhã
Os sobreviventes
Lastimarão equívocos.

Já o tempo... Esse
Não discute,
Só escuta,
Já conhece a história.

Francisco Costa

Rio, 21/10/2013.

O MEU LEITOR

Eu vos declaro meu leitor,
O que comunga pirraças
E assiste impropriedades
Postas no papel em branco.

O que range dentes de ódio
E sorri do chiste repentino,
Inesperado como punhal
Lacerando consciências.

O que concorda e abençoa
Ou discorda e espragueja
No trânsito das emoções.

Aquele par de olhos atentos,
Fazendo a ponte
Entre o texto e o coração,
Com a intromissão do cérebro,
Claro, este indiscreto
Determinando opiniões.

Eu vos declaro meu leitor,
Cúmplice curtindo
Ou desafeto em impropério,
Mas meu leitor.

Escrever é verbo transitivo
Só se esgota completo
Se produz eco em outro poeta
Em atitude passiva
Do outro lado.

Depois se inverte,
Eu viro leitor,
E aí é a minha vez
De curtir ou xingar,
Duas variantes de ser cúmplice,
Parceiro... E amar.

Francisco Costa

Rio, 22/10/2013.
Os teóricos da atual política
Pensam que comunistas
Comem crianças e prendem
Quem deles discorda.

Quem come criança
É pedófilo
E quem prende
É a polícia.

Comunista é quem não gosta
Do pedófilo
E da polícia.

O que ora pela cartilha do nós
E combate a sintaxe do eu,
O que insiste em se dar,
Com dificuldade de encontrar
Quem o tome como de seu.

Francisco Costa

Rio, 16/10/2013.

PAPAGAIO EQUIVOCADO

Comprei um papagaio
Desses, verdamarelo,
De bico torto
E olho de peixe morto.

Mal coloquei o bicho na gaiola,
Pronto para ensiná-lo
Palavras novas e novas ideias,
Ele começou a repetir, mecânico,
Automático, monótono:
Socialismo intelectual de Gramsci,
Ditadura militar já, passeata...

Preocupado de estar em erro,
Em receptação de roubo
De algum animal de rico
Fui investigar a procedência
Certo de que de ex proprietário
Abastado e partidário da miséria
Como necessidade natural
Para o progresso do social.

Mas não, foi de família pobre,
O que me fez entender
Que foi papagaio de um papagaio.

E então o tirei da gaiola
Certo de que jamais irá fugir.
Ele está naturalmente preso
Nas grades de si mesmo.

Francisco Costa

Rio, 19/10/2013.

POEMA MUITO DOIDO

(A História do Brasil recontada)

Contam que Dona Carlota Joaquina,
Contraparente de Dona Leopoldina,
Nascida em Algarves, na Espanha,
Tinha a estranha mania
(é o que se dizia)
De coçar a aranha.

Já Dom Pedro, que foi apóstolo,
De parentesco com João,
Bom vivant e garanhão,
Vivia de ósculo em ósculo,
Patrocinando surubas na corte.

Revoltados com tal situação,
Eis que generais de Napoleão,
Degredados da Pensilvânia,
Resolveram apear as botas
Na bosta e acabar com a democracia
(é o que se dizia).

Construíram pontes e paus de arara,
Criaram cavalos e cadáveres
Importando canais de televisão
Que agora fazem assim: plim plim!

Já Getúlio, que não era bobo,
Nem anunciante da Globo,
Perguntou a Tiradentes:
- Como se mede um assassino?
- Médici de cima abaixo.
O que deixou Pelé contente,
Todo sorridente, apontando
FHC futuro presidente.

E foi assim que venderam tudo,
Todo o patrimônio nacional,
Deixando o povo de bunda de fora,
E a grana num paraíso fiscal.

Francisco Costa

Rio, 18/10/2013.
Por tua sensualidade viscosa
Escorrendo em mim
Vou te chamar de meu mel.

Pelo sabor doce do beijo
E o ligeiro ácido do hálito,
Só a chamarei de meu mel.

Assim, quando já velhinha,
Cristalizada e pouco viscosa,
Mas de mesmo hálito e sabor
Eu não precisarei trocar teu nome,
Murmurando em teu ouvido
Meu mel.

Francisco Costa

Rio, 17/10/2013.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Prenhe de poemas,
Contemplo-me agora
Extensão do não enunciado
Escorrendo por meus dedos
E se fixando no papel.

O poeta é só instrumento,
Parte passiva, ferramenta
De que se serve o indizível
Para se dar à mostra.

Há, entre o chão e a eternidade,
Mais que flores e estrelas,
E é justamente isso,
Essa força desconhecida
Que o escraviza e tem.

Por desconhecia e só suposta
Chamemo-la amor universal.

Francisco Costa

Rio, 19/10/2013.
Que sendo pó,
Eu não me esqueça disso,
Em permanente luta
Para manter-me ereto.

E ereto que eu me saiba
Transitório e tosco, só pó
Com a pretensão de mais.

Assim, diante do  próximo
Que eu veja não mais que pó,
Derrubando importâncias,
Edificando respeito,
Estabelecendo a identidade.

E que não se veja nisso
Humildade. É lógica:
O pó da lama do chão,
O que se arrasta no vento,
Sem destino e sem vontades,
Já foi pó de estrelas,
Nasceu lá.

Francisco Costa
Rio, 22/10/2013.


Para entender o poema: toda a matéria existente no universo se formou nos núcleos das estrelas. 
Rola morro, mundo
Meu coração abaixo
Versos de cristal e jade,
Talhados em luz
Que inunda tudo.

Puro transe, místico
Momento de realização,
Instante de paz,
Leio Vinícius de Moraes.

Francisco Costa

Rio, 19/10/2013.
Tua língua, morada do prazer,
Invade-me o corpo, a vida,
Em violação consentida,
Reduzindo-me a só instintos.

Ora macia, em textura leve
De algodão ou esponja,
Ora como se feita na forja,
De aço e diamante, pedra,
Tua língua elabora trajetórias
Onde me perco, e reduzido,
Me encontro integral, completo,
Como anexo de mim mesmo
Preso a uma língua.

Sempre propenso à entrega,
Por mais que eu resista
Bendigo a minha boca
Cativa da tua língua.

Se faz sol ou chove não sei,
Se é dia o noite, também não.
Fiz da vida e dos momentos
Uma temporada de beijos,
Onde tudo o mais não importa.

Francisco Costa

Rio, 14/10/2013.

UM SÉCULO

De tudo à poesia estaremos atentos,
Com tal zelo e sempre e tanto
Que jamais nos esqueceremos dele.

Há exatamente um século, cem anos,
Parte sustancial da poesia universal,
Lírica e doce, encarnou nesse planeta,
Com nome e endereço:
Vinícius de Moraes.

Íntimo amante do uísque,
De filosofia simples e prática,
“um homem deve estar sempre
Pelo menos um copo acima”,
Complementou-se em versos
E corpos femininos,
Sem que possamos adivinhar
O que mais bundante em sua obra.

De dondocas refinadas e estilosas
A poetisas e artistas plásticas,
Passando por sua cozinheira,
Uma negra gorda e analfabeta,
Foram oito casamentos consumados,
Em atestado de que “o essencial
É invisível para os olhos.”

De peculiar vocabulário
E estranha sintaxe
Era pródigo em diminutivos,
Entre amores, parceiros e amigos:
Tomzinho, Chiquinho, garotinhas...
Daí a alcunha de Poetinha.

Mas nem só na poesia e no tesão
Se podem os homens completos
E assumiu a consciência social,
Mais que solidariedade, a identidade
Com os apartados dos pratos e da poesia.

Diplomata de carreira, poliglota
Viu o futuro castrado pela ditadura
Que o afastou das embaixadas,
Dos consulados, mas não calou os versos
Nem matou a indignação.

Vininha vive, o Poetinha está
Onde estiver um coração apaixonado,
Atento a sonetos e quadras, à liberdade
Poética que se consuma em seus versos.

Dia 19/10/1913,
Dia em que o mundo amanheceu melhor.

Francisco Costa
Rio, 19/10/2013.


Na foto, a descontração de Vinícius e o seu inseparável copo de uísque, com Chico Buarque, ainda menino e já parceiro, ao lado.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

CIÊNCIA, DEUS E POESIA

Quando me penso no limite final
Os caras descobrem o bóson de Higgs,
A chamada partícula cósmica de Deus.

Como uma criança em véspera de natal,
Antevejo logo ali adiante, para breve já,
Deus alçado de hipótese para necessidade,
Obrigatoriedade de justificativa para tudo.

Que matéria e energia são variantes do mesmo,
Face da moeda única na economia do universo
Eu já sabia, carecendo no entanto
O entendimento de como a conversão acontecia.

Eis que se aproxima a hora definitiva
Em que terminada a escalada científica
Pensando-se sós e proprietários da verdade
Os cientistas encontrarão antigos teólogos
Em sorrisos bondosos: “mas nós dissemos!”

Emendando com doce tom asceta:
“aqui onde estamos, antes de nós
Só os poetas”.

Francisco Costa

Rio, 14/10/2013.

(na foto, simulação do instante em que partículas se chocaram e apareceu o bóson de Higgs)

domingo, 13 de outubro de 2013

MEIO IRADO

A direita é pândega, neurótica
Com vergonha de si mesma.
Comentando os meus escritos,
Caracterizam e rotulam, marcam,
Adjetivando-me em profusão:
Comunista, socialista, subversivo,
Esquerdista... Sem que eu retruque,
Assumindo-me na esquerda, sim.

Vou aos textos deles e o que vejo
É pedido de retorno de ditaduras,
Homofobia, racismo, xenofobia,
Preconceitos mil: de classe,
Geográfico, étnico, sexual...
E um profundo ódio canino,
De presas à mostra,
Sempre que são contestados.

Aí os rotulo, como referência,
Não por opinião ou ofensa,
Por teoria política: fascistas!

E se ofendem, em auto negação,
Como pássaros em voo,
Negando ter asas.
(o que acham que são? Liberais,
Democratas, libertários,
Progressistas?)

Cultivam a mais falha das ciências,
A achologia, o achismo, imunes
A teorias, estatísticas, informações,
Certos de que a ração oferecida
A eles é definitiva, sem variantes.

Se algo lhes contraria os conceitos
Rotulam de mentira ou abandonam
No umbral do nunca ouvi falar.

Que os beneficiários do sistema
O defendam é coerente,
Mas a claque com fome
Fazer o discurso do opressor
Só mostra a coerência da direita:
Fabricar robôs acéfalos a repeti-los,
Até a hora de colocá-los na corrente,
Novamente, e servir a ração.

Francisco Costa

Rio, 12/10/2013.

A PARTIR DE UM SONETO DO CABRITA

Espraio-me em azul,
Em mil tons de azuis
Postos na vida, nos dias,
No mundo, em mim
Desconfiado, esperando
Azuis em profusão:
Cerúleo, cobalto, água
Índigo, veronese, azul...
Até tudo azul azulando
Cores outras esmaecidas,
Feridas, chorando
Na guerra.

Francisco Costa

Rio, 06/09/2013.
Agora percorro dobras
No interior
De mim mesmo.

Quero saber
Onde me escondo
De mim mesmo.

Se dentro ou fora.

Francisco Costa

Rio, 08/10/2013.
Bom dia, sexta feira,
Dia de Bee Gees na vitrola
E borboletas no quintal.

O sol soa plácido, radioso,
Em bons augúrios que vicejam
Esperança de dia novo,
Diferente, apartado de ontem.

Ontem me falaram de bombas,
De uma guerra no oriente,
De meninos decapitados
E moças de úteros secos,
O que só pode ser mentira.

O sol não iria me iludir, mentir
Assim, deslavadamente,
Tentando me induzir a crer
Que o homem desperdiça o sol,
Estraga as sextas,
Mata as borboletas do quintal.

Parem com as mentiras.
O homem não poderia
Ser tão estúpido.

Isso é coisa de quem está morto,
Não sabe cometer poemas
Nem se alimentar de poesia.

Francisco Costa

Rio, 06/09/2013.
Cansado de ostentar raiva,
Clamo por um sorriso.
Eu preciso.

Meus braços são curtos
Para abraçar tudo
E outros braços
Não me abraçam,

Cada qual em braços cruzados,
Segurando o próprio coração.

Lastimamos a ausência de asas
Nos prendendo no chão,
E nos recusamos aos abraços,
Fazendo do espaço, apartação.

(Ô contradição!)

Para isso temos braço,
Para a conquista do espaço,
Comunhão.

Estar só é estar na contramão.

Francisco Costa

Rio, 07/09/2013.

CARTA AO AMIGO BOB

CARTA AO AMIGO BOB

My Friend

Entenda que o nosso ódio
Não é particular, a cada americano.
Ele repousa sobre os seus governos,
Embora os efeitos recaiam sempre
Sobre quem os elegeu.

Fosse o meu governo semeador do caos,
Depondo regimes democraticamente eleitos
Para os substituir por títeres amestrados,
A serviço dos interesses de minha pátria,
E suas bombas recairiam sobre nós,
Indistintamente, em revolta e defesa.

Matasse inocentes, para geração de lucros,
E sua ira estaria focada aqui, em todos nós,
Beneficiários da mortandade imposta,
Condimentando com sangue humano
O hambúrguer nosso de cada dia.

Fôssemos nós agentes da guerra e da morte,
Bebendo petróleo em veias infantis,
Extraindo minério de vísceras inocentes,
Para garantir a nossa opulência, e a sua ira
Nos empaparia os dias, cada minuto,
Deixando-nos apreensivos, também sem paz.

Não temos nada de pessoal e nem cobramos isso.
Perdoe-nos, é que os petardos terroristas,
Como o capital, segue lógica própria,
Longe dos homens e íntimos da morte.

A nossa defesa é o ataque,
A sua defesa é o combate
A quem lhe faz vulnerável.

Cordial abraço, my friend.

Francisco Costa

Rio, 10/10/2013.

COISA DE IRMÃOS

(Pra Durce Sousa, in memoriam)

Súbito te revelas na foto, irmã não esquecida
Dormindo na saudade. Conter-me como,
Se as amizades nos fazem siameses, unos,
Indefectivelmente ligados pela eternidade?

Pegando-me desprevenido, desligado, súbita
A luz do teu sorriso posto nos dias, outrora,
Voltou, avassalador, total, em intensidade tanta
Que a noite se interrompeu no sol do teu rosto.

Esquecer-me como, se mais que referência
Te fizeste partícipe, amiga e conselheira,
Voz diferente porque dissonante
No coral dos contentes? Esquecer como,
Se rasgo de alegria intermitente
Em momento estranho e conturbado
Tuas palavras ficaram como lição e alerta?

Posso te fazer um pedido ainda?
Nossa filha atravessa mar conturbado,
Precisa das minhas palavras e do teu coração,
Da minha vigília e da tua oração.
No resto vai tudo bem.

Francisco Costa

Rio, 10/10/2013.

TECLADO

Cravo ou piano, teus dentes,
Sementes de sonoridades,
Esparramam sonhos, ideias
Nascidas do encantamento.

Acordes de luz feita sons,
És oferenda de magia e risos
Interiores, espontâneos,
Simples, em congraçamento

Que se impõe e domina,
Arrebata, como um beijo.

Francisco Costa

Rio, 03/09/2013.
Em reciprocidade de intenções
Delírios copulam em versos
No imaginário dos poetas.

Poemas são pontes
Que atravessam
Tempos e espaços
Desnudando corpos, almas
Até que só restem corações
Em exercício
Na metafísica do amor.

Poemas não lastimam
Nem choram. Mostram-se
Só segredos compartilhados,
Sorrisos ou lágrimas
Com endereço certo,
Chegando
Como beijos anunciados.

Francisco Costa

Rio, 11/10/2013.