sábado, 31 de agosto de 2013

AULA DE ARTESANATO

Hoje aprenderemos a fazer uma gaiola
E você deverá ter em mãos
Muitas varetas de bambu
Ou material similar, mas resistente.

Principie por afinar as varetas,
Uma a uma, na dimensão do orifício
Onde passarão, na armação de madeira:

A da vergonha da própria nudez,
Ensinada na primeira infância;
Depois a da maldade
Diante de outro corpo e do dito.

A da religiosidade, que lhe impôs
Um deus cruel  e em permanente vigília,
Vasculhando as suas intenções
Mais secretas, todos os seus sentimentos,
Sem que lhe sobre nenhum espaço
Para a espontaneidade, a naturalidade.

A da disciplina, que o faz curvado,
Propício às ordens e orientações,
A não reagir nunca diante da autoridade,
E entender como autoridade
O que for de senso comum, coletivo,
Ainda que você discorde e se sinta mal.

A da percepção da diferença que incomoda,
Preconceitua e aparta, discrimina, faz pior:
Cor de pele, opção sexual, nacionalidade,
Nível cultural, quantidade de dinheiro
No bolso e no banco, na bolsa e na alma...
E criticar e criticar e criticar...
Porque isso justifica a realidade.

A da sonolência cerebral, que lhe faculta
O não pensar, o aceitar sem questionar,
O que diziam ao mais velhos, o que dizem
Todos agora, na televisão, na igreja,
No programa político partidário, nas ruas...
Em permanente folga ao seu cérebro
Distraído nos corredores dos shoppings,
Nos games, realitys shows, novelas...
Tudo o que adormece e anestesia.

Terminada esta parte, com cuidado
Coloque as varetas na armação,
Lixe, envernize, passe para dentro,
peça a alguém para fechar a portinhola,
e aguarde a água e a ração salarial.

Se um dia se cansar da situação,
Quebre as varetas, uma a uma,
E então principie a treinar
Até aprender a voar.

Francisco Costa

Rio, 31/08/2013.

ACESSO A TUDO

Adivinhe o que tenho nas mãos!
Nas mãos eu tenho tudo e mais.

A mulher que eu quiser, as manhãs,
O pássaro mais lindo, toda a história,
Cada fato que eu queira me apropriar,
Paragens distantes, recreios infantis,
A galáxia mais longínqua, luas, cometas,
Todas as flores do mundo, silêncios.

Adivinhe o que tenho nas mãos!
Nas mãos eu tenho uma caneta,

O meu formão de esculpir versos,
Extensões de mim em tudo.

Francisco Costa

Rio, 31/08/2013.
Gosto do que se esconde
E amua no anonimato,
Só se mostrando ocasional
Porque sempre escondido
No que se faz igual:

As flores minguadas e simples
Que entre cravos e roseiras
Floresce no quintal;
O cinzento sem trinados do pardal;
Os feitos que não vão para o jornal.

Ser diferente é natural?
Ou ser só mais um entre todos
É que é o normal?

Ser diferente, só diante da amada.
Isso sim, é fundamental.

Francisco Costa

Rio, 31/08/2013.

OLHANDO A FOTO

Pegue este pote de corações
E coma-os, um a um,
Até descobrir qual é o meu.

É o mais doce e delicado,
O mais macio e avermelhado.

Não, originalmente ele não é assim,
Ficou assim por que está em sua boca.

Francisco Costa

Rio, 31/08/2013.

ROSA NEGRA

Rosa negra,
Mas não menos rosa,
Não menos flor.

O mesmo perfume,
Eóleo sumo de paixão,
E mesmas formas,
Arquitetura de tesão,
Ela se mostra
Mancha negra
Iluminando a escuridão.

Seu brilho não tem cor
Porque não nasce na pele,
Como em nenhuma flor,
Gesta-se dentro, no íntimo
E aflora em explosão
Na primavera.

Seu néctar, negritude
Posta em meus lábios
Inaugura a primavera
Em mim.

Francisco Cota

Rio, 31/08/2013.

ALTERNÂNCIA

Sim, te amo,
Mas de parcimônia,
Continência posta na tarde,
Quase anonimato distraído.

Não espere de mim  atos extremos,
Declarações bombásticas,
Atestados públicos de estar amando.

Sou como a maré vazante,
Pouco exposto, de pouca marola,
Impróprio às pescarias e aos recreios,

Mas, maré vazante,
Também me sei diferente, quando
Na hora certa me torno pleno,
Exagerado, em maré cheia.

Francisco Costa
Rio, 31/08/2013.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A SALA DA UTOPIA

Alucinadamente bêbado por contradições,
Alterno-me em olhares díspares, manietados
Com as cordas da insensatez e da loucura.

Percorro agora os corredores do museu humano,
As entranhas de suas vilosidades cerebrais
E me encanto diante de Da Vinci e Kandinsky,
Perdido na sã insanidade de Van Gogh, nos azuis
De Picasso envergonhado de Guernica e Franco.

Na sala ao lado prédios flutuam em desafio
À gravidade e à inventividade humana, Niemayer
Escondendo vigas e colunas, na prestidigitação
Da magia em concreto e vidro. Adiante, distraído,
Le Corbusier e os anônimos das Pirâmides,
Em precisões matemáticas de assombro incontido,
Bombardeados por Cruzadas, Inquisições, Reichs,
OTANs e tudo o que for de matar e ferir.

No fim do corredor, Rimbaud e Pessoa fumam
O cachimbo do chefe Txucarramae, talvez Tupi,
De braços estendidos a Stanislawsky e Neruda,
Enquanto incêndios irrompem, não seletivos,
Devorando livros, obras de arte, leis, vidas,
Em holocausto ao comércio e às religiões.

Por fim a última sala, a de porta única,
Só de entrada, vazia, oca, sem saída,
Encarcerada em si mesma, com um letreiro:
Aqui ficaria a sensatez, o amor ao próximo,
O respeito, a honestidade, a bondade,
A justiça, a saciedade, o homem integral.

Perdoe-nos a falha no acervo.
Ainda não encontramos nada assim,
Ou pelo menos que se assemelhasse.

Francisco Costa

Rio, 30/08/2013.

EXÓTICA FAUNA

Que os bem nutridos
Pit-bulls da burguesia
Ladrem, entendo.

Que os puros sangues
Da classe dominante
Empinem, entendo.

Que as platinadas zebras
Do empresariado
Escoiceiem, entendo.

Que os paquidermes do consumo
Saiam atropelando tudo,
Em trombadas, entendo.

Que as alvas ovelhinhas
Dos rebanhos religiosos
Lancem balidos de medo,
Entendo.

Só não entendo os vira-latas
Que catam comida no lixo
Se juntarem a exótica fauna
Para protestar contra médicos
Que vieram salvá-los.

Isso não entendo.

Francisco Costa

Rio, 30/08/2013.

FERA FÚRIA

(a todos os bombeiros portugueses, em guerra)

O inimigo é impessoal,
Não tem face nem tem corpo,
Desliza, devorando voraz
O que encontra pela frente.

Luminoso e passageiro,
Queima pelo contato,
Assa pela presença, covarde,
Imune a qualquer munição
Que não a coragem humana.

Mutante, ora é um, ora, vários,
Em filhotes que crescem rápidos,
Espalhando focos. Cego à sanha
De devorar, não se limita a pouco,
Amamentando as próprias entranhas
Com fauna, flora, patrimônio humano,
Os próprios humanos e tudo o mais
Que for encontrando pela frente.

Mas não há desgraça eterna, permanente.
Logo estará contido, ainda que saciado,
Prisioneiro das caldeiras e lareiras,
Novamente escravo do homem
Contabilizando heróis tombados
No exercício da sua contenção.

Olhos maternos choram,
Mas corações maternos sorriem.
Pariram heróis, destemores
Como exemplos a todos nós.

Francisco Costa

Rio, 30/08/2013.

ALFABETIZAÇÃO (SEXUAL)

O galo galou a galinha,
O faisão fudeu a faisoa
O tucano tascou a tucana
O cavalo comeu a...
Égua destoa.
O cavalo passou a régua.

Francisco Costa

Rio, 30/08/2013.

LOS MACAQUITOS BRASILEÑOS

Se há uma gente estranha e engraçada
Está nos trópicos, logo abaixo do Equador.
Espalham-se pelo mundo todo, a trabalho,
Estudo, turismo, recreio ou politicagem,
E nunca se ouviu falar de invasão tupiniquim.

Mandamos técnicos, engenheiros, operários
Para o Oriente Médio, para a construção civil
E nunca se viu discursos de islamitas irados
Com a invasão macumbeiro-cristã no Islã.

Invadimos Tóquio e nenhum budista reclama,
Vamos à África e somos recebidos em festas,
Salvo na matriz, terra de importância bélica,
Ornada em dólares e sangue alheio, vendo-nos
Macaquinhos amestrados e subalternos.

(já os argentinos nos adoram
Porque enrolam
No peso, no preço e no troco).

Vamos a Cuba e Fidel não põe o exército
De prontidão, nem discursa invasão
De lacaios capitalistas destruindo a ilha.

Aí médicos cubanos são recebidos aqui
Como marines no Vietnã, phantons na Síria,
Com o suprassumo da babaquice burguesa
Borrando-se, com medo que o povo acorde
E descubra que a miséria não é natural.

E põe a nu o racismo, a xenofobia
O ódio de classe, a infantilidade social
Nascidos da alfabetização compulsória
Nas aulas assistidas na net e na televisão.

Seria risível, se não fosse de envergonhar.

Francisco Costa

Rio, 29/08/2013.

MAIS UMA CONTA NO ROSÁRIO

Já acordo pronto ao poema,
Talvez em contraponto à sabiá
Que me assobia na janela.

Que reserva pra mim o dia hoje?
Indignação e  raiva no sangue
Que jorrará no oriente, mesclado
Em petróleo e dólares?

Dada a idade e as dores,
Será meu dia último,
Entre sorrisos e versos,
O ponto final em um poema
Pouco rimado porque quebrado,
Inconstante e passional?

Virá hoje a mulher esperada,
A que procurei em cada corpo
E em nenhum corpo estava?

Haverá conjugação de corpos outros,
Estelares, siderais, distantes e belos,
Em atestado à minha própria pequenez,
E os meus netos correrão na grama,
Semeando gritos e gargalhadas,
Inocentes dos amiguinhos sírios?

Levanto-me, espreguiço-me lento,
Pondo os músculos em alerta máximo,
Vou ao espelho, para o ritual diário
Da higiene matinal e... Mais uma ruga,
Presente do mundo, atestado de vida.

Bom dia, sol; bom dia, fauna;
Bom dia, flora; bom dia, amigos.

A primavera mandou avisar
Que vem mesmo.

Francisco Costa

Rio, 30/08/2013.

MAIS UMA GUERRA

Quedam-se mudas as musas
Em partilha de silêncio e dor.
Cessam os sons dos violinos,
E calam clarins e pássaros.

Eis que é chegada hora do luto,
Do silêncio posto como som,
Da imobilidade em repasto no dia,
De horas que se querem mortas.

O dia amanheceu prenhe de cores
Que serão abortadas, fará escuro.

Meteoro da constelação do apocalipse,
Um míssil cruzará hoje o céu, o mundo,
E explodirá na consciência de todos.

Hoje os poemas não serão possíveis.
Os poetas estarão ocupados em chorar.

O dia anuncia mais uma guerra.

Francisco Costa

Rio, 30/08/2013.

UM BEIJO

Por instantes esqueço tudo,
As bombas nas mãos de Obama,
A ansiedade de golpe do burguesinho
A paranóica ameaça comunista
As chamas que tostam o Portugal
Dos meus amigos, as borboletas
Que insistem no jardim, ignorantes
De que os homens complicam e pioram.

Que se desliguem tomadas e fios
E se interrompa o trânsito e os trâmites
Interditem-se os ponteiros dos relógios
Imponham paralisia ao movimento do sol.

Súbita e surpreendente
Chegou a mulher amada.

Parem tudo
Porque me quero num beijo
Quieto, calmo, delicado, mudo.

Francisco Costa
Rio, 29/08/2013.


PRIMAVERA

Posto que a primavera está posta,
Preciso tomar algumas providências
Para recebê-la, hóspede desejada.

Principio por semear pássaros no quintal
e podar as roseiras, incitando-as a partos
de perfumes, formas, cores... Poesia
a ser declamada pelo vento fazendo eco
nas copas das árvores, em floradas
que antecedem frutos, mas aí já é verão.

Fico na primavera, esplendor de luz
Posta em minhas retinas enamoradas,
Tontas, por partícipes da natureza,
A quem convencionaram chamar estação.

A primavera não é uma estação,
É a viagem toda, turismo em exercício,
Sem contratempos e baldeação.

Os colibris estão chegando, e as borboletas,
Cada coisa que soa e cintila, derrama cores
Em despudorada orgia dos sentidos.

A primavera vem aí e, atento, faço parte.
Bem vinda, prima, verasmente bela.

Francisco Costa

Rio, 30/08/2013.
Rondo o seu corpo, em fome e febre,
Pronto a reduzi-la a língua e dentes,
A sinfonia de movimentos ritmados
Num balé imaginário, na horizontal.

Músculos tesos, respiração suspensa,
Aproximo-me predador diante da presa,
Paciente, estudando cada reação,
Pronto ao bote definitivo e avassalador.

Suas roupas são agora paredes concretas
A serem devassadas, postas em ruínas,
Até que o dia acorde e amanheça,
Interrompa o cansaço.

Francisco Costa

Rio, 30/08/2013.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Adiantada já a hora,
Dispo-me da vaidade
E quase imploro: não vá!

Reservei ainda um copo
E nele uma poção de paixão,
Talvez o resto, resquício
Do que ostentei um dia,
Agora, só e inteiro pra você.

Aconchegue-se, mora em mim
Ainda a terna predisposição
De amar em silêncio, calado,
Em culto ao que não se basta
Porque grande, enorme,
Do tamanho de você.

Vem.

Francisco Costa
Rio, 26/08/2013.


AOS BURGUESES SEM DINHEIRO, INSTRUMENTOS DA ACUMULAÇÃO

Causa-te ojeriza qualquer possibilidade
Em que não és referência,
De preferência, beneficiário.

Para ti tudo é aferido em dinheiro,
Tem a dimensão exata do preço,
E a política se resume a salários.

Nada lês, de pouco sabes, e destila
Uma pretensa sapiência de onisciente,
Apontando caminhos, escolhendo o ideal.

Teus olhos não coletivizam, antes
Apartam em lotes: posses, cor de pele,
Nível de escolaridade, nacionalidade
Faixa etária, condição social, sexualidade...
De maneira a depreciar tudo o que não és.

Rês apascentada, ao invés de desgarrar
E ultrapassar a porteira, criticas
Os que se recusam ao pasto permitido
E às cercas de contenção,
Exigindo que se fortaleça as cercas
E ponham cadeados no portão.

O novo te assusta e incomoda,
O diferente te faz perdido
Porque tens referências fixas,
Doutrinárias, incutidas automaticamente
E automaticamente incorporadas.

Teu senso crítico é operação contábil
E tuas exigências únicas são monetárias.

Não tens oponentes e adversários,
Só inimigos, porque o supremo sacrilégio
É discordar das tuas verdades.

Irritas-me, com este ar douto
De tudo ao alcance,
Em permanentes pedidos, senhor do mundo:
A Deus, a sorte, às forças armadas...
Em reforço à tua própria fraqueza,
Que só se faz forte quando amparada.

Vindo o que esperas, tu me matarás.
Vindo o que espero, eu te educarei.

Francisco Costa

Rio, 29/08/2012.

CORAÇÃO CALCINADO

Um dia, rútilo empapado em sangue
Pulsei, dadivoso e compenetrado
Sentimentos que se espalharam por aí.

E conheci o fogo, as brasas das paixões
E ardi em amores não correspondidos,
Beijos interrompidos, abraços inúteis
Porque com braços de adeuses, byes.

O fogo das traições, encolhendo-me
Em ódio envergonhado, e das esperas,
Endurecendo-me cada vez mais, tolo,
Certo de que ausências temporárias,
O que se fez para nunca mais, sempre.

Agora mentem pra mim, em histórias
De difíceis vocabulários: colesterol,
Hipertensão, gordura em excesso,
Tabagismo, stress... Até genética,
Em vãs e vis tentativas de me iludir.

Nasci para o amor, e se pulsei sempre,
Recusando-me a intervalos e descanso,
Foi por amor, sem tempo e vontade
De pausa para o estar amando.

E agora, calcinado, cinza sólida,
Morro aos poucos, também por amor.

O amor justificou-me a existência,
Justificará a minha ausência.

Francisco Costa

Rio, 27/08/2013.

NO JULGAMENTO FINAL

E no julgamento final,
Purgando já arrependimentos
E remorsos
Confessarei minhas infrações
Nesse trânsito da vida.

Falarei da cobiça enorme
Permanente e continuada
Nas mulheres dos próximos
E dos afastados, da gula
Imensa e permanente
Que trouxe sempre no olhar,
Sorvendo todo ao alcance
E fixando em telas, papéis...
Concentrado em pigmentos,
Reconstruindo tudo de novo,
Brincando de ser Deus.

Falarei das mentiras muitas
Em ouvidos femininos,
Sementes de futuras safras,
E das minhas dúvidas religiosas.

Mas sobre o pecado maior,
Que pecado continua sendo
Porque sem arrependimento,
Calarei em secreto esconder.

Se deu comigo na tevê, vendo
Duas torres lindas ardendo.
Depois lastimei e fiquei triste:
Foram só dois aviões
E não os primeiros
De muitos mísseis.

Francisco Costa

Rio, 28/08/2013.
Em idílio com o permanente
Agora me sei cúmplice das estrelas,
Parceiro do sol, de cada pássaro
Habitante na dimensão das horas.

Há em mim agora a transcendentalidade
Do que se sabe só ponte entre o instante
E a eternidade, esperando coisas novas,
Matéria para esses velhos olhos gastos
Pretendendo o que não sabe, mas espera.

A vida é só um piscar de olhos,
Uma súbita, quase instantânea
Escuridão feita de imagens e vontades.
O essencial mora antes, e depois.

É quase hora de abrir os olhos,
Tenho medo da saudade do escuro.

Francisco Costa

Rio, 29/08/2013.

MORTES

Falo-vos da morte, da maldição,
Do destino preciso do que vive.

Falo-vos da interrupção do calor
E do estanque dos movimentos,
Da condenação ao alheamento,
Radical e definitivo, no silêncio.

Falo-vos da imobilidade, do frio
Posto na mineralização eterna,
Fazendo da carne pó e pedra,
Matéria de memória, referência.

Falo-vos da morte amestrada,
Mansa, quase desejada,
A do senil que espera nada,

E da rebelde e repentina, cruel,
Conduzida pelo suicida louco
Em depressiva e louca solidão.

Falo-vos do que nos iguala
E identifica, reduz a iguais,
Passageiros ocasionais no hiato
Entre o primeiro grito no parto
E a última lágrima na partida.

Francisco Costa

Rio, 28/08/2013

PROCURA

Não sei em que página perdi
Meus sorrisos, meu olhar
De por esperança em tudo.

Folheio por desencanto,
Eu, que tive tanto encanto,
Mas não consigo encontrar.

Talvez tenham ficado por aí,
Em alguma guerra ou batalha,
Talvez com a moça transitória,
Que chegou e não ficou.

Quem sabe no parágrafo político,
Mortos com indignação e raiva,
Ou em algum capítulo de mistério,
Entre o assassino e a vítima,
Compenetrados em desvendar.

Na contracapa não estão, nem
Logo depois da introdução.

Na ficção científica, habitando
Amebas radiativas e clones
De árvores incandescentes,
Em alamedas futuras, também não.

Cadê meus sorrisos? Eu os quero
Nos lábios de novo, em moldura
Aos meus olhos esperançosos.

A esperança é que eu os encontre
Antes que termine a história.

Francisco Costa

Rio, 28/08/2013.

CONTRADIÇÕES

O que é a pedofilia
Diante do infanticídio?
E linchas o tarado
E dás aval a exércitos.

O que é o assalto
Diante da fome?
E linchas o ladrão
E justificas a fome.

O que é um golpe
Diante da revolução?
E chamas o passado
E te recusas ao futuro.

Quem és tu
Diante da eternidade?
E te julgas
Eixo do mundo.

Tuas contradições
Te definem.

Francisco Costa

Rio, 29/08/2013.
Obama e Osama,
Dois nomes árabes
Faces da mesma moeda
E que nos dão asco.

Um semeou
Em Nova Iorque
O outro semeará
Em Damasco.

Francisco Costa

Rio, 29/08/2013.
Prisioneiro dos meus próprios sonhos,
Permanentemente reivindico-me  outro,
O que não atravessa as pontes dos sustos
Nem caminha nas ruas das carências.

Francisco Costa

Rio, 26/08/2013
Setembro chegou,
Já bateu em minha porta.
Sei que é ele porque há luz
E crianças correm na grama.

Vem disfarçado, fantasiado,
Ora de flor ou borboleta,
Às  vezes de praia ou vento.

Extasiado e atento
Abro a porta e mando entrar,
Tem o meu consentimento.

Francisco Costa

Rio, 29/08/2013.

SÍRIA

Por aqui corriam crianças
Desfraldando gritos e sorrisos,
Exatamente como nossos filhos
Ou nossos netos, os dos vizinhos.

Mas uma bomba inaugurou o deserto.

Agora as crianças só gritam e sorriem
Nas consciências ocasionais
Dos que choram bombas
Inaugurando desertos.

Francisco Costa

Rio, 28/08/2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Tu me dizes rosa,
Eu te digo flor.

Tu me dizes margarida,
Eu repito: flor.

Tu me dizes dália,
E eu insisto: flor.

Tu me dizes tulipa,
E abrevio o assunto:
Flor, flor, flor, flor...

Fosse dito Jeová,
Deus, Javé, Alá,
Zambi...

E eu repetiria
Deus, Deus, Deus...

Teu sujeito é oculto
Porque sujeitas o predicado.

Meu sujeito é simples
E em oração não subordinada.

Francisco Costa

Rio, 24/08/2013.

PERFEIÇÃO

Sou perfeito.
Súbito, descobri-me perfeito,
Em medida exata da perfeição
Que me redoma humano:

Sou feito de dúvidas,
De tudo desconfio,
Cultivo preconceitos
E colho safras de defeitos.

Prometo e cumpro se der,
Espero sabendo que não vem,
Mando sabendo que não vai,
Escondo vergonhas, ironias,
Escárnio, desprezo ao que
Não me identifica e complementa,
Ambiciono o que me é interdito.

Busco soluções inadiáveis, mas não agora,
E me refestelo no que faltará adiante.

Esta a minha perfeição:
Ser imperfeito, ser humano.

Francisco Costa

Rio, 25/08/2013.
Sou feito de silêncios.

Grita em mim a ausência de sons,
O vazio sonoro em que me debato
Ânsia de voz em exercício,
Manchando as dobras dos dias
Com minha voz rouca,
Alternada em carícias e impropérios.

Sempre que calo, mostro-me,
Porque falando me escondo.

Sou assim, verborragia contida,
Frases não ditas, discursos calados.

Porque falar qualquer coisa
Se meus olhos dizem te amo?

Digo tudo no silêncio de um beijo,
Na ausência de sons de um olhar,
Num gesto distraído e simples.

Palavras atrapalham.

Francisco Costa

Rio, 26/08/2013 

CONFUSOS

Se meu gemido se ancora
Em prazer carnal e sorrisos,
Todos atentam e cultuam.
Se é de dor e solidariedade,
Ancorado em sangue e lágrimas,
É, no máximo, interessante.

Se o discurso é declaração de amor
A corpos nus e olhares lascivos,
Arrebanho cúmplices para elogios.
Se é de exigências ao cumprimento
Do necessário e urgente,
É, no máximo, interessante.

Se o silêncio é porque estou ocupado
Com sexo e sensualidade, mundano,
Regam-me a vaidade com  a admiração.
Se o silêncio é de pranto e cumplicidade
Com o silêncio dos inocentes mortos
De fome e tiros, aqui ou na Síria,
É, no máximo interessante.

Se falo de mim, atentam.
Se falo do mundo, é,
No máximo, interessante.

Interessante, isso.
Recusam o prato próximo
Para se saciarem no distante.

Francisco Costa

Rio, 24/08/2013.
Prisioneiro dos meus próprios sonhos,
Permanentemente reivindico-me  outro,
O que não atravessa as pontes dos sustos
Nem caminha nas ruas das carências.

Francisco Costa

Rio, 26/08/2013

MAIS UM

Pelo timbre já sei:
Lá vem mais um poema mal humorado,
Recheado de indignação e cobrança.

Eu não os queria assim
E se dependesse de mim
Todos os desprazeres seriam deletados,
Jogados no arquivo das tristes lembranças,
Para que murchassem em mofo
E esquecimento.

Mas que fazer com esses meninos
Que perambulam com fome e vícios
E morrem nas calçadas da indiferença?

Onde esconder a menina que em si gesta
Inoportunidades de sorrisos e medo,
Sentadas sobre a orfandade social?

Como fechar os olhos ao velho choroso,
De mãos postas, não em preces,
Mas à espera do que não virá?

De que maneira me fazer imune
Aos que dormem sobre papelão
E se cobrem com marquises?

Como expulsar dos versos as feridas,
Os miasmas, a purulência indecente
Dos que ornamentam o mundo com o caos?

Como garimpar poemas e decidir
Que só os de bálsamo e âmbar
Se prestam a serem mostrados?

No esqueleto das estrofes,
As palavras se fazem carne
E encarnam o que é humano.

Gemem gozando,
Mas também gemem chorando.

Francisco Costa

Rio, 25/08/2013.