sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Tua pele
Pátina viva
Sobre carne
Emoldura
Prazeres.

Sedosa,
Afeita
A carícias
Limita
O mundo
E o despudor.

Tênue,
Melindra
A inocência
Do poeta
Apondo versos
Como tatuagens
Impressas
Em beijos.

Francisco Costa

Rio, 25/01/2014.
Solidão,
Intempérie
Interior,
Pedra e pó
Perdidos
No deserto
De vontades.

Praga posta
Sobre o peito,
Pulsação
Perdida
Em lamentos,
Labirintos
Onde se esconde
O que não existe.

Francisco Costa

Rio, 29/01/2014.
Quero-me impresso em ti,
Na pele, no corpo, na carne,
Indelével  e permanente,
Diuturno, para sempre.

Quero-me mancha, nódoa
Em tuas articulações e veias,
Pousado em teus sorrisos,
Sobrenadando em lágrimas
E suor, líquidos outros
Escorrendo em mim tatuado
No mais íntimo do teu ser,
Quente e apartado de tudo,
Como um embrião tranquilo
Por saber que não haverá
Parto nem partida.

Francisco Costa

Rio, 30/01/2014.
Quero-te devassa,
Despida de pudor,
Toda unhas e dentes
Triturando a madrugada.

Quero-te perdida,
Despossuída de vergonha,
Nua, vestida apenas
Com o que te enobrece
E realça.

Tuas roupas destoam,
Tua pele te basta
E o mais excede,
Mascara teu corpo
Em quarto crescente,
Enluarando a minha cama.

Francisco Costa

Rio, 19/01/2014.
Pronto a por fim ao que me exaspera
E cansa, subtrai, limitando-me em mim,
Decido procurá-la, impronunciada flor
Oscilando na brisa da minha memória.

Chego tímido e pronto a nãos e talvez,
Com a autocomiseração do condenado,
Ansioso, esperando a execução rápida,
Poupando a humilhação dos dissabores.

Ao invés, ela é pura oferenda, entrega
De retorno urgente ao que ainda existe,
E nos enlaçamos, novamente um só,
Cópula de sorrisos fecundando a tarde.

Francisco Costa

Rio, 29/01/2014.
Pronto a por fim ao que me exaspera
E cansa, subtrai, limitando-me em mim,
Decido procurá-la, impronunciada flor
Oscilando na brisa da minha memória.

Chego tímido e pronto a nãos e talvez,
Com a autocomiseração do condenado,
Ansioso, esperando a execução rápida,
Poupando a humilhação dos dissabores.

Ao invés, ela é pura oferenda, entrega
De retorno urgente ao que ainda existe,
E nos enlaçamos, novamente um só,
Cópula de sorrisos fecundando a tarde.

Francisco Costa

Rio, 29/01/2014.
Moça, eu preciso de você
Com precisão tanta
Que me range os dentes.

De olhos baços, desiludidos,
Eu busco você, seu vulto
Ainda que esmaecido
E longe, apartado de mim.

Moça, meus braços querem
Meu corpo espera, em ruído
Que não se pode música
Senão com você, por você.

Moça, desaparecida moça,
Pouco se me dá se de não
A sua resposta esperada,
Se de talvez ou quem sabe,
Desde que resposta rápida,
Urgente e necessária, como
Ar para um asfixiado, água
Ao que na agonia da sede
Implora uma única gota,
A última, digitando moça,
A tortura me mata, vem cá.

Francisco Costa

Rio, 20/01/2014.
Fora as contravenções da natureza
E os crimes contra o meu coração,
Sigo incólume, embora com cicatrizes.

A vida é duelo, combate constante,
Luta permanente numa guerra
Sem tréguas e sem armistícios,
Alternando-e em sorrisos e lágrimas.

O inimigo? Eu mesmo impaciente,
Abarcando o que o braço não alcança,
Pequena canoa, tosca e frágil,
Com pretensão de navegar tempestades.

Francisco Costa

Rio, 25/01/2014.
Embevecido e terno
Meu tosco coração
Pulsa sorrisos bobos
Ritmando canções.

Amanheci diferente,
De leveza estival
Ostentando-se clara
Como mão de criança
Amparada em flores,
Sem que possamos saber
O que é mão ou flor.

Ou o mundo está doido
Ou esqueci de acordar
E ainda sonho.

Lá fora sol e borboletas
Fazem a orgia do dia
Que escorre calmo,
Em luz, cores e poesia.

Silêncio. A natureza ora!
E a mim, coisa menor,
Só resta a contemplação
Da transcendência em ação.

Devo não ver, mas anjos
Orbitam a minha emoção.

Francisco Costa

Rio, 25/01/2014.
Dispo-me do que me incomoda
E começo o retorno, rápido,
Antevendo o que me espera,
Regalo de prazeres ocultos,
Disfarçados em telefonemas
De venha logo, estou esperando.

Principio por despir o blusão,
Botão a botão, lentamente,
Enquanto analiso-lhe o relevo,
Exuberância de carne e calor
Pulsando no ritmo da respiração.

Agora desamarro os tênis,
Cadarço e cadarço, tirar,
Pronto a envolvê-la num laço,
Louco para em mim disperso,
Dar-lha a rima do primeiro verso.

Mas há que haver calma,
Será doação de corpo e alma,
E desafivelo o cinto, controlado,
Para não ceder ao que sinto.

Abro o fecho eclair da calça.
Ruborizada mais sua beleza realça,
Esticor os braços, para o primeiro
De uma série de abraços,
Ora mansos e lânguidos,
Ora como se eu estivesse furioso
E encerro rápido o poema
Porque todo leitor é curioso.

Francisco Costa

Rio, 28/01/2014.

DIANTE DO MAR

Assim, parado diante do mar,
Verde que se estende até o horizonte,
Observo a monotonia dos seus movimentos,
Sempre os mesmos, repetição constante,
E imagino a vida em andamento, do outro lado.

Imagino bêbados caminhando em ruas ermas,
Iluminadas pelas lâmpadas pálidas dos postes,
Meninos agarrados a sorrisos e curiosidade,
Mulheres na faina de lavar roupas e varrer o chão.

Imagino os executivos e suas gravatas, bravatas
Justificando o último negócio levado a bom termo,
Cabras e vacas ruminando a solidão do tempo,
Soldados em ordens unidas ou nos stands de tiros,
Ensaiando o desempenho na tragédia da morte.

Vejo floreiras nas janelas, talheres sobre as mesas,
Cães latindo cheiros, cortinas na dança do vento,
Toda a coadjuvância que compõe o ritual das horas.

Súbito lembro-me de ti, idealização consumada,
Levantando-se da cama, meio que dormindo ainda,
Restabelecendo o contato com a realidade,
Pronta para a higiene matinal e o café com pão.

E triste, abandono o mar. Dou meia volta e retorno.
O mar não me acompanha, permanece a teus pés,
Em simbolismo de minhas lágrimas banhando-te toda.

Francisco Costa

Rio, 19/01/2014.
Desestruturado,
Pronto às ruínas
De mim mesmo
Contemplo-te,
Escora e arrimo,
Sustentação
Do que em mim
Desmorona.

Refém de ti,
Purgo-me
Entrega e posse,
Trôpego passo
Trilhando apegos,
Precisões,
Carências
Cadenciando
Meu metabolismo.

Mancha na memória
Te ameaças nódoa
Invalidando-me
O veio e a vida,
Meus versos
Vazios de tudo
Porque cheios de ti.

Agora vago,
E vago
Me espero
Preenchido.

Francisco Costa

Rio, 25/01/2014.
Confesso-me surpreendido, senhora.
Vendo-te entre netos e rosários,
Ruminando a sabedoria dos tempos,
Mansa e passiva, alheia aos sentidos
Aparentemente gastos e cansados...
Eu jamais poderia imaginar...

Súbito te ergues do que pensei sono,
Indômita e lasciva, babando prazer,
Para congeminar energia e sonhos,
Em volúpia de menina desvirginada,
Na entrega de primeiro coito, arejar
De cortinas abertas para o mundo.

Como navegar em tamanho turbilhão
De ações, inusitados atos, desempenho
De gazela na pradaria, leve, livre, solta,
Sem as amarras das convenções,
As correntes do aconselhável,
Só carne e hormônios em festa,
Orgia que pensei em suspensão?

Quem diria desse estelionato...
Oferecer-se senhora, mamãe, vovó,
Para se entregar menina despudorada,
Mais que senhora, mamãe, vovó...
Ainda e sempre mulher.

Francisco Costa.

Rio, 21/01/2014.
Busco por flor inédita,
Nunca antes vista,
De sedosas pétalas azuis
E arquitetura diferenciada,
Ornada com sutis aromas.

Que sendo flor não seja,
Mal identificada, secreta
Na ambição de ser flor,
Só forma diferente
Encantando toda a gente.

Que a seu lado tudo vergue
Em reverência e respeito,
Se não de encanto,
De desmedida surpresa
Diante do inusitado
Em requinte de beleza.

Mais que flor, que seja
Absoluto sonho e odor
A diáfana materialização
Desse meu rude amor.

Francisco Costa

Rio, 30/01/2014.

A PARTIR DE UM POEMA DO AMIGO ZÉ DOS REYS SANTOS

(embolando Kardeck e Marx)

Parte do que me falta,
Busco-me frenético
Nos meandros
De onde não sei.

Desconfio-me por aí,
Parte apartada do todo,
Buscando encaixe
Ou pelo menos
Complemento
Do que em mim falta.

Não sou daqui,
Estou aqui,
Como um náufrago
Num areal de sol,
Sonhando a cidade
Em que um dia ficou.

Mas não basta o sonho,
É preciso trabalhar a areia
E com ela edificar a cidade
Que um dia me edificou.

Francisco Costa

Rio, 27/01/2014

sábado, 18 de janeiro de 2014






















P XCIX


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Calai, arquibancadas.
Detei-vos, bolas.
O campeonato
Está interrompido
E o sorriso fez gol contra.

Há vaga no panteão,
Euzébio está morto.

O time do paraíso
Está mais forte,
Nossos estádios,
Mais vazios.

Euzébio está morto.

Francisco Costa

Rio, 06/01/2014.
Conflito de sensações desordenadas,
Habito-me surpreendência em curso,
Incapaz de apostar em mim o a seguir,
Perdido em curvas e meandros, quinas,
Nos meus próprios caminhos interiores.

Mal me reconheço nesse, o que chora,
Ou no outro, no que também chora,
Incapaz de entender essas lágrimas,
Talvez excesso ou sintoma de falta,
Um pedaço apartado e que clama longe.

Busco-me como a si se buscam em angústia
Os enamorados, os emancipados de si,
Transitando entre o antigamente
E oportunidades que se querem urgentes.

Entre estrelas e vaga lumes pretendo-me luz.

Francisco Costa

Rio, 09/01/2014.
Habito-me parcial por que inconstante,
Ora ensolarado, ora nublado ou morno,
Sujeito a nevascas e temporais, ou brisa
De fim de tarde, pasto de aves arredias,
Namorados, borboletas, noite próxima.

Mudo-me como as marés e as estações,
Pingando letras para molhar versos,
Ora pequenas poças, ora corredeiras,
Avassaladoras tsunamis ou marolinhas.

Nunca sei dos momentos seguintes.
Minha meteorologia está sujeita
Ao que se me oferece matéria prima
Do humor... E do amor.

Francisco Costa

Rio, 07/01/2014.

TUA BOCA

Tua boca, portal de prazeres,
Concupiscência de carne,
Caverna de umidade e calor,
Sobressai, soberana maciez,
Do que a adorna e completa.

Como flor de duas pétalas
Ostenta estame único
Escondido, tua língua,
Magnitude de prazeres
Que se anuncia em hálito
E palavras, saliva, gemidos.

Oráculo de pretensões, soa
Anunciação de êxtases,
Prólogo de loucuras,
Antevisão da realização.

Vermelha e molhada
Me aguarda e me guarda.

Francisco Costa

Rio, 04/01/2014.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Sem controle sobre o que em mim germina,
Escorro-me, passional e escandaloso,
Sobre superfícies que me esperam.

Semeio palavras escritas, redigidas,
Estupro no silêncio verbal que pretendem,
E espalho cores, pigmentos, pingos de luz,
Dando forma aos meu fantasmas interiores.

Nem romântico nem criativo,
Menos intelectual ou diferente,
Só um coração estupefacto, perplexo
Com a multivariedade de todos os corações.

Os que pensam meus versos pedaços de mim
Estão enganados. Meus versos são seus espelhos,
Pedaços do próximo, dos quais me livro,
Devolvendo-os lágrimas ou sorrisos digitados.

Poetas são só dois olhos e um coração
Farejando o querer alheio, e denunciando.
O poeta é o delator do que se queria secreto.

Francisco Costa

Rio, 04/01/2014.

RÉQUIEM PARA UM TORTURADOR

Eu me deliciava, vendo aqueles corpos
Em farrapos, frangalhos, clamando
Piedade na convulsão dos choques.

Dava gosto vê-los nus, desprovidos
De roupas e dignidade, desfazendo-se
Em merda, mijo, lágrimas e vômito,
Já não senhores de si, mas parte de mim
Enojado diante da fragilidade dos fracos.

As mulheres... Ah, as mulheres peladas,
Algumas gostosas, em pose de pré cópula,
Como frangos na assadeira, e as comíamos
Com prazer multiplicado por ver o asco
E o desespero, sentindo-se nosso penico.

E as execuções com balas de festim,
Só pólvora, sem projéteis,
Para que experimentassem o medo
Da hora última, final, derradeira.
E ríamos dos que oravam
E odiávamos os que gitavam ofensas,
Impropérios, palavras de ordem.

Nunca questionei dos motivos da dor,
Meu compromisso não era com a justiça,
Mas com o meu prazer pessoal
Submetendo o que se supunha forte.

Agora envelheço entre peidos e dores,
Hemorróidas, e já não ouço: oficial!
Dependendo de uma negra bunduda
Para me dar as colheradas de sopa e papa,
Ocasionalmente indo à internet, para ler
Que descobriram tudo e agora me execram,
Exigindo julgamento e punição, cobrança
Pelo meu cumprimento do dever.

Perdão, sou só um verme
Que outros vermes estão prontos
Para comer.

Francisco Costa

Rio, 02/01/2014.
Rasgo-me por inteiro
E por inteiro morro-me
Ciúme que se encorpa
E escapa do controle,
Reduzindo-me a nada,
Só essa insegurança
Que não se ameniza
E se eterniza, desliza
Sobre poros e pelos
Em apelos, arrepios
De antissexo exposto
Em silêncio de morte.

Francisco Costa

Rio, 01/01/2014.
Primeiro dia do ano,
Preciso escrever
O primeiro poema do ano.

As ideias, embotadas e arredias,
Recusam-se ao laço da poesia.

Tateio, cutuco, vasculho e nada.

Minha inspiração não tem calendário,
Nem foi avisada dessa noite.

Sonolenta e distraída dormita ainda
Nas horas mortas do ano passado.

O pior é que não tenho como avisá-la.
Ou acordará por si e me procurará
Ou me chorarei comum e calado,
Não mais que um poeta morto
Procurando-se nos poemas alheios.

Inspiração, psssiiiit! Vem cá!

Francisco Costa

01/01/2013.
Não me falem de poemas!
Estou cheio, cansado,
Dividido entre os meus e os alheios,
Em leitura permanente
Ou parto constante.

Não quero saber mais de poemas!
Eles não pagam as minhas contas,
Não direcionam revoluções,
Confundem mais que esclarecem
E se querem o último docinho da festa.

Fora com os poemas, eu já disse!
Deixe-os a mercê de si próprios,
Narcísicos, vaidosos, deslumbrados,
Orbitando os próprios umbigos,
Ostentando-se independentes.

Quero textos revolucionários,
Palavras armas que mobilizem,
Munição verbal, provisão de letras.

Chega desses orgasmos miúdos,
De arrepios pequenos,
Dos prazeres individuais.

Eu quero o caos, a reforma
Íntima e coletiva, a mudança,
Do título ao ponto final.

Eu quero um orgasmo universal.

Francisco Costa

Rio, 04/01/2014.
Não mais disposto
À clemência, pedidos
De trégua e conciliação,
Mudo-me outro agora,
O imune a teus encantos,
Distante e distraído,
Chutando pedrinhas no chão,
Talvez contando estrelas,
Revel do que se quis pra sempre
Parte do teu corpo, púlpito
Onde gritei sermão de posse
Eterna, pra sempre, inutilmente.

Vi-me no espelho e me apaixonei.
Eu te traí, outra vez me habitei.

Não estou mais disposto
A matar a minha sede
Na fonte do teu rosto.

Francisco Costa

Rio, 03/01/2014.

HOMO AFETIVAS

Iguais,
Se coçam e se roçam,
Lapidam-se no toque
E se tocam, iguais.

Nada sobra ou falta,
Se faz mais ou menos
Põe-se ereto e firme
Ou murcha vergonha.

Confunde-se línguas,
Fundem-se seios,
Orgasmam-se amores
Interditos aos puros,
Moralizados pudores,
Rogando à divindade
Que não lhes permita
Errar o próximo tiro.

Nem mágicas religiões
Nem certezas bélicas,
Só amor, simples assim.

Francisco Costa

Rio, 03/01/2014.
Hoje, exatamente à meia noite
Eu vou lhe dar um livro novo.
Não tente ler, você não conseguirá.

Será um livro estranho,
Eu diria um anti livro,
Com trezentas e sessenta e cinco
Páginas em branco, limpinhas.

Junto, darei uma caneta
Com carga bastante
Para lotar as páginas,
Até a última.

E em todos os dias, antes de dormir
Você escreverá em uma página,
Uma somente,
Empapando-a de sorrisos e lágrimas,
Adeuses e orgasmos, chegadas,
Partidas, vitórias, fracassos.

E então, daqui a exatamente um ano
Você me devolverá, para que eu leia
Uma linda história de amor e superação,
A sua história, diferente de todas
Porque única, original, sua.

FELIZ ANO NOVO, MEUS AMIGOS!
FELIZ ANO NOVO, MINHAS AMIGAS!

Francisco Costa

Rio, 31/12/2013.
Frágil, de fragilidade posta
Em sorrisos de bebês,
Plumas soltas, aéreas,
Aleatórias e leves, no ar,
Como doces mãos de fadas
Em exercício de carícias,
Volatilidade feita cheiros,
Inebriares florais, cascatas
De cristalinas águas, puras
Como a inocência do homem
Em seu instante primeiro.

Burla ao que se quer pecado,
Duro e frio, de letalidade
Morta porque afogada
No que se fez bom.

Frágil, com a fragilidade
Do temporário
Que não se sabe eterno.

Francisco Costa

Rio, 03/01/2014.
Flash back de puras emoções,
Minha poesia purga sensações,
Exposição de neurônios loucos
Em provimento à insensatez.

Se choro, empapam-se de lágrimas,
Cada verso parido em soluços,
Em partos de navalha nos pulsos.

Se em temporada de sorrisos,
Exagerados soam gargalhadas,
Alegria, felicidade, utopia
De momento instantâneo e rápido,
Hiato de tônica em mar de átonas.

Mas quando apaixonado...
Não é poema, mas pedaços de mim,
Cardiocacos pulsando no papel,
Olhares mal dissimulados, silêncio
De hormônios que efervescem
Mal contidos nas veias e no texto,
Buscando a leitora certa, precisa,
Onde se fará explosão clandestina,
De palavras desconexas e estranhas
Embotadas de sonhos e sexo.

Francisco Costa

Rio, 03/01/2014.
Essa permanente gravidez de poemas
Incomoda, escraviza-me no teclado.
É como incômoda barriga que carrego,
Dia e noite, em sol ou sombra, na chuva.

As grávidas de gente, recheadas de fetos,
Tem prazo determinado de alívio. Eu, não.
Desde o nascimento escorro-me hemorragia
De sentimentos digitados, manuscritos,
Desenhados, em parto permanente,
Até o dia da imobilidade, quando terei parido,
Finalmente, o meu poema derradeiro,
Definitivo, sem palavras e sentimentos,
Descrevendo a eloquência do silêncio,
A aposentadoria compulsória das mãos,
Parturientes em ação, e do útero coração.

Francisco Costa

Rio, 04/01/2014.
Era ela quem ditava as horas
E estabelecia datas no calendário,
Sempre terna e pronta ao assédio,
Como uma ágil serpente no bote,
Pronta a imobilizar-me vencido,
Presa nos estertores do prazer.

Dela dir-se-ia magnitude de festa,
Presença luminosa, iluminando,
Qualquer coisa inenarrável,
Ilógica e surpreendente, pequena
Para conter tudo em si, mas gigante,
Na medida dos meus braços, êxtase
Que se consumava cotidiano.

Mas foi embora, e tão diferente era
Que expediu o corpo e permaneceu aqui.

Francisco Costa

Rio, 02/01/2013.