sábado, 22 de fevereiro de 2014

DIAS NOVOS

Saudosista, tento parar o tempo,
Mas como, se tudo muda
Mais rápido que o homem?

Tijolo a tijolo, a paisagem muda.
Muro a muro, a paisagem se retalha;
E mesmo as cores nos catálogos,
Nas paredes e cômodos,
Desbotam-se, amarelam-se,
Compondo mudanças permanentes
Que quase nunca se repetem.

A paisagem, então, não pode, não deve
Ser referência, ponto fixo de apoio,
Evola-se em fumaça e morre em tapumes.

Busco a cultura, o que jorra incontinente
Da cabeça do homem, e vou à música.
A marcha de ontem funkeia agressiva
E os concertos e madrigais, as sonatas,
Sofrem, apunhaladas no mercado do fútil,
Do imediato e descartável
Reclamando mudanças rápidas e radicais
Expostas nas gôndolas dos shoppings.

Então vou às cores e formas, ao furto
Da realidade imobilizada nas telas,
Modelada em pedra ou massa,
E as paisagens, os rostos, as naturezas mortas
Tornaram-se abstratas e a tinta pinga
Como sangue no cenário dos dias atuais.

E tento dançar, mas minha partner
Trocou as sapatilhas pelos tênis
E nua tem orgásticos espasmos no salão,
Como uma salamandra em salmoura,
Ou um infeliz sapo na boca de uma cobra.
São movimentos frenéticos, desconexos,
Em acorde com o abstrato das telas,
Os sons militarmente retumbantes
E as lacerantes luzes do caos
Dopando as minhas retinas atônitas.

Atônito, sem ter o que fazer no mundo hostil,
Vou para as ruas. O trânsito não flui, parado,
Empacotado entre buzinas e impaciência,
Com tudo pardo, o sol eclipsado em prédios,
E as passeatas de outrora são batalhas campais
De anônimos sem propósitos e sem bandeiras,
Investindo sobre tudo o que se quer civilizado,
Como tanques, tratores desprovidos de pilotos,
Migrados para o que mora atrás de máscaras,
Um sítio de vácuos e impressões vagas,
Jogando no mundo as frustrações que os habita.

A ponte que me liga ao passado foi dinamitada.
Do lado de cá sou um estrangeiro sem raízes,
Um peixe apartado do mar em que morei,
Só um verso divorciado do poema.

Edificar-me novo é difícil. Por isso morro
Devagarinho, um pouquinho em cada dia,
Entre o espanto, o desencanto e a poesia.

Francisco Costa

Rio, 22/02/2014.
Sim, palpita ainda
No mais recôndito de mim,
Escondidinho, secreto
Desejo ardente de encontro,
De entrega urgente,
Em apelo: pra nunca mais!

Porque fugir, tentar escapar,
Se se repete em tudo
O mesmo rosto escancarado,
Em apelo de não tem jeito?

Como dar as costas,
Se por na estrada em definitivo
Se a estrada termina no início
E o que penso partida
É sempre chegada?

Entre a intenção e a decisão
O coração sempre retorna
Enquanto as pernas vão.

Francisco Costa
Rio, 16/02/2014.

PEQUENOS BÁRBAROS

O que me dói é o teu egoísmo,
O cuidar de si e que se dane o resto.

Teus valores são monetários,
Tuas vontades têm preço,
E tua razão de viver repousa
No dinheiro que te dará acesso a tudo.

Se em algum lugar alguém morre,
Solitário e abandonado, de fome e sede,
A ti diz pouco e pouco incomoda,
Não atinge porque não atrapalha
O trânsito das tuas ambições.

Nunca perdes tempo com o próximo
Porque o próximo é teu concorrente,
Ocupa lugar na fila, te faz esperar,
E concorre em concursos e acessa
O que gostarias de ter sido o primeiro
A ter acessado e tomado posse.

Este o teu mundo, o das coisas,
Dos objetos, dos utensílios,
Ferramentas da tua felicidade
Apoiada no ter, juntar, amealhar,
Porque tão mais poderoso te sentes
Quanto com mais guardado.

Tua mente não pensa, contabiliza.
Teu peito não arde, palpita de desejos,
Mas sempre materiais, palpáveis,
Concretos, próprios à subtração
De vontades, porque saciadas.

Nisso reside a tua coerência, em ter,
Não importa a que preço imposto
Aos que jamais irão ter.

Cristão ao inverso, em mão oposta,
Transitas de costas para o calvário,
Para agências bancárias, templos
Onde repousa tua divindade disfarçada.

Sobre todos os iguais a ti ou assemelhados
Repousa a indigência, a carência, a dor
Dos que se sentem apartados da vida,
Com menos para que possas ter mais.

Como não admites nada em comum
Tudo o que te contraria é comunismo.

Como dividir é verbo estrangeiro e hostil
Não admites cúmplice ou sócio,
Tudo o que te nega é socialismo.

E babas ódio e vociferas barbaridades,
Senhor da verdade porque a verdade
Se basta e se acaba no que tens,
Seja o pouco conquistado
Ou o que jamais terá, sonho eterno
Mobilizando-te ao atropelo do próximo.

Outros, iguais a ti, crucificaram,
Fizeram tomar cicuta, torturaram,
Trabalharam fogueiras e fuzilamentos,
Exterminaram em fornos crematórios,
Com a mesma justificativa de sempre:
Não pensam iguais a mim, concorrem
E atrapalham a mecânica do escambo,
Sobram no mercado, precisam morrer.

És cínico, dissimulado, irônico, ocupado
Em desqualificar tudo o que não converge
Para o teu sistema de ideias, pronto,
Acabado, imune a conceitos novos
Porque o novo é ameaça, insegurança,
Porque ainda não tem preço.

Certo que pensas que falo dos ricos. Não!,
Este modo de ser não se mede
Pela quantidade de moedas amealhadas,
É um estado de espírito, um modo de ser,
Não importa se só com um cofrinho
Ou uma gorda conta secreta no exterior.

Robô do capital que tens ou não,
Esperas que tudo vire dinheiro
E que o dinheiro mova o mundo.

O que não sabes e nunca saberás
É que o dinheiro não compra o tempo
Que flui conspirando em favor da vida.

Podes atrapalhá-la, retardá-la...
Mas jamais a impedirás.

Um homem não é um cofre, é mais.

Francisco Costa

Rio, 19/02/2014.

O DESCANSO DO GUEREIRO

Ando de poemas zangados,
Com ranço de raiva,
Mal contidos na indignação.

Preciso clarear o horizonte,
Espantar as pulgas do lençol,
Expor sorrisos mais bonitos.

Então vou visitá-la em casa,
Tomar banho de suor e prazer,
Ouvir gritos que não ouço na rua.

Logo ela se põe na sacra nudez
Que apaga tudo e tudo sacia,
Despindo-se do invólucro
Que escondia a poesia.

Deponho armas, é o armistício,
Calando palavras de ordem
E nada mais que sonhos exigindo.

É provável que haja guerras lá fora,
Passeatas, exigências políticas...
Mas meus versos estão desarmados.

O poeta do protesto ficou por aí,
Lavrando pedras pra palavras.

Este, puro instinto e hormônios,
Carne flagelada de amor, goza.

E gozando estabelece adormecido
O descanso do guerreiro.

Francisco Costa

Rio, 21/02/2014.
Metade da minha família
Me queria ovelha branca
Na missa, casadinho,
Quietinho, sem botar banca.

O outra metade temia, certa
De que eu sabia
Do que incomoda e aperta,
O que me faria ovelha negra
Envergonhando a família.

Dissidente de tudo, rebelde,
Inaugurei sobre todos
Novas centelhas,
Fazendo da minha família
Um enorme rebanho
De ovelhas vermelhas.

Francisco Costa

Rio, 20/02/2014.
Iluminura posta no mural dos sonhos,
Teu sorriso aquece e acalanta corpos,
Edifica vontades, permite realizações.

Solar, sanguíneos teus lábios, úmidos
Portais, conduzem ao intraduzível,
Ao que não se pode dito, só sentido.

E tuas mãos? Delicados tentáculos
Em apreensão ao que se quer preso,
Em dádiva de cárcere oportuno.

Teus peitos... Ah! Teus peitos, carne
Em sagração ao que não se pode seios
Porque sexo exato, orgasmos sólidos.

Tua barriga, esse arfar louco, em plágio
À dança das marés noturnas e frescas,
Enluarada na presença do teu umbigo.

Tuas coxas, estacas de sustentação,
Arrimo, colunatas góticas em surpresa
Ao sequer imaginado, pura magia.

És toda linda, moldura da essência
Que te faz única, em odores de mel
E umidade urgente de pós verão.

Por entre pernas, em ti lateja a vida
Em segredo, secreta, só esperando
Quem a toque e desperte.

Francisco Costa

Rio, 19/02/2014.
Falo-vos de um tempo de homens quebrados,
De sorrisos curtos e prantos desbragados.
Falo-vos da vigia e da delação, da tortura,
Do quebrar de ossos e consciências.

Falo-vos de um pesadelo enorme, constante,
Regado a sangue, nutrindo-se de vidas.
Falo-vos de mães e filhos apartados,
Relegados aos abraços somente em fotos.

Falo-vos de tanques no asfalto, no trânsito
Do medo e da intimidação, de vozes caladas.
Falo-vos dos órfãos de informações e cultura,
Administrando a própria alienação importada.

Falo-vos de tempo duro e homens quebrados.
Falo-vos de qualquer ditadura porque iguais,
Gêmeas na sanha de semear terror e morte.

Francisco Costa

Rio, 21/02/2014.

COXINHAS

Midiáticas, as consciências,
Caixas de reverberação,
Repetem o que lhes ordenam
O dinheirinho posto na mídia.

Automáticos, cérebros
Subnutridos de informações
Ecoam o que lhes é dito:
Comunismo, mensalão,
Terrorismo , corrupção.

São os intelectuais vazios,
Nascidos de informação nenhuma,
Avessos a livros e pensamentos,
Em ideia única que se repete
Como um bate estacas na calçada.

Cegos, pintam cores imaginárias
E formas puramente cerebrais,
Exigindo que o mundo se adapte
Às próprias verdades, miragens
Nascidas da ignorância
Nutridas no vazio existencial
Semeando utopias perigosas.

Confundem abutres e pombos
Oferecendo milho e farelo
Aos que lhes comerão as carcaças.

Francisco Costa.

Rio, 17/02/2014.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Relicário de decepções
Quero-me agora outro,
O que não chora nem sente,
O que não espera nem mente.

Quero-me qualquer coisa longínqua,
Distante, sem vínculos com o aqui,
Substrato de necessidades inúteis.

Eu quero a eternidade, o infinito,
A consciência total, sem perguntas
Porque todas respondidas.

Já mal me contenho coisa pouca,
Repetitivo, quase automático,
Atribuindo importância ao nada
Travestido de fundamental e urgente.

Quero romper limites, ampliar espaços,
Abarcar o disponível, inundar tudo
Com a minha presença.

Já não me contenho mais aqui parado,
Imóvel crisálida ansiando-se borboleta.

Eu quero sair por aí, eu quero dançar.

Francisco Costa

Rio, 15/02/2014.

OS NATIMORTOS

Os poemas pelos quais choro?
Pelos natimortos,
Os que se quiseram ostentados
Aos olhos do leitor e morreram
Antes mesmo do ar da graça.

Muitos surpreenderam-me absorto
Em atividades outras, compenetrado:
Em salas de aulas, entre mitocôndrias
E emparelhamentos eletrônicos
De spins contrários, como casais
Numa dança imaginária, os alunos
Atentos à música redigida no quadro.

Outros chegaram comigo no atelier,
Reedificando-me cores e formas,
Compondo poemas visuais,
Derretendo-me tintas e solventes
Na consecução de poemas mudos,
Sem causar incômodo ao silêncio.

Teve os enxeridos, indiscretos,
Que chegaram nas discussões conjugais,
Em diálogos meus com contabilistas,
Fiscais, gerentes de banco, financistas,
Intrometendo letras entre números,
E os que me flagraram em camas,
Redigindo carícias em papéis de carne,
Procurando a rima mais rara
Em versos precisos, declinando-me
Poeta para ser não mais que um homem.

Ah! E os sem senso, maluquinhos
E inoportunos, surpreendendo-me
Em passeatas e concentrações, comícios,
Comigo no microfone, contribuindo
Com a história e os sorrisos dos herdeiros.

Os que se assanharam em praias,
Entre gaivotas, brisa, mar e bundas,
Lendo a poesia diretamente na fonte;
Os que se quiseram urgentes
Quando eu era preguiça e sono;
Os que se pretenderam sexo
Comigo exausto, em pleno intervalo,
E os que se pretenderam armistício
Justo quando eu estava no melhor da briga.

Estes ninguém leu e muitos esqueci,
Natimorreram porque fora de hora,
Extemporâneos, perdidos em si,
Todos atentos à nova encarnação
A qualquer hora da noite ou do dia
Requisitando-me novamente
Para nova explosão de poesia.

Francisco Costa

Rio, 14/02/2014.

DOMINGOS

O sol acordou forte de novo,
Sujando o escuro com luz,
Derramando cores e calor.

Amanheceu domingo, e os pássaros,
Que não conhecem calendários
Nem se prendem a horas presas nos relógios,
Não foram à praia, insistem nas árvores,
Semeando trinados e caçando insetos.

As borboletas também não respeitam nada.
Rebeldes, quase  revolucionárias,
Fazem greve ao avesso, trabalham
Em dia de descanso semanal, polinizando
As flores e multiplicando a poesia.

Hoje é domingo, eu sei, o sol me disse.
Olhos postos na janela capturo imagens,
Sons, movimentos... Tudo o que é de encanto.

Nada pode  passar porque sei
Que ainda que se inaugurem novos domingos,
Esse que amanheceu hoje jamais se repetirá.

A felicidade mora nos domingos.

Francisco Costa.

Rio, 09/02/2014.
Minhas mágoas?
Eu as tenho ocultas,
Como intestinos cânceres,
Incomodando só a mim,
Sem que possam vê-las.

Já os meus êxitos
Eu os trago nos olhos,
De público, declarado,
Sorrindo a paz do realizado.

Dissimulado e fingidor,
Deixo que coabitem
E se combatam nas arenas
Que convencionaram
Chamar de poemas.

Verso que não sangra
Ou não beija é só texto,
Pretexto do não fazer nada.

Entre a intenção e o gesto
As palavras reclamam presença,
Mas não como festa gratuita.

Silenciosas e obrigatórias,
Querem-se prazer inglório
De vitórias ou velórios,
Recomeçando sempre.

Francisco Costa

Rio, 12/02/2014.

SÓ LÁGRIMAS

Minhas lágrimas?
Eu as verti quase todas
Sobre papéis em branco,
Esperando que se consumassem
Palavras sentimentalizadas,
Borradas com o mais íntimo de mim.

Salgadinhas e cristalinas,
Escorreram sobre corpos meninos
Com flores esculpidas em sangue,
Desabrochadas em peitos e testas,
Esperando o Instituto Médico Legal.

Sem peias e amarras, correram soltas,
Misturadas a propinas e cala bocas,
Hidratando cada corrupto de plantão. 

Ocasionalmente mal retidas,
Molharam sarjetas de crianças com frio
E barrigas adolescentes esperando frios
Que dormitarão em novas sarjetas.

Prontas para umedecerem a realidade,
Inundaram tudo: palácios e casebres,
Manhãs ensolaradas, tardes sombrias,
Noites de temporais, reduzindo-me
A dois olhos encharcados, digitando
A sonoridade do silêncio lacrimoso
E triste, vertendo lágrimas.

Mas nem todas navegaram, macabras,
Em luto e decepção, ira deslavada
Varrendo os rituais da infame realidade.

Já chorei sobre peitos femininos,
Condimentando seios e palpitares,
Salgando orgasmos que me perseguem
Na vontade e na memória, eternizados
Porque únicos, diferenciados e precisos.

Quantas vezes me permiti corredeira
De lágrimas desaguando abundante
Em líquidos outros, íntimos, de entranhas
Quentes, só carne e desejos, molhadas...

Quantas, nublando chegadas e partidas,
Ornamentando adeuses e boas vindas,
Livrando-me do que se fez perecível,
Limitado, porque  já esgotado, acabado,
Ou de braços abertos para a definitiva?

Quantas sem motivo aparente, gratuitas,
Por causa de uma música, uma foto...
Qualquer coisa que ao simples passante
Soaria nada ou muito pouco para lágrimas.

Segundo poeta maior, somos fingidores,
E assumo o meu fingimento, a mentira:
Fingi sempre escrever poemas e versos,
Quando na verdade eu só sabia chorar.

Este o nosso ofício, verter lágrimas
Sobre papéis em branco, verbalizando-as,
Em esforço extremo de não sermos mais
Que as lágrimas com que escrevemos.

Francisco Costa

Rio, 08/02/2014.

USINA NA PRAIA

Fundem-se velhice e infância,
Em simbiose.
Estou  na praia, água nos joelhos,
Atento aos siris nos puçás.

Sopra brisa estival, morna,
Pondo balé nos coqueiros,
E o sol escorre aquecendo a areia.

Sou  só um menino atento,
Pronto aos siris e aos sonhos,
Mastigando sardinha frita
E segredos que  a via desvendaria.

Hoje  voltei lá, para lembrar.
As cabanas dos pescadores sumiram,
Aterradas por um depósito de óleo.

No lugar das biroscas, silos de álcool,
E as varandas migraram para o nunca.

Já não há areia, submersa no concreto,
E a água, maresia e sal, casa dos siris,
É uma coisa negra, quase pastosa,
Cheirando a defunto e gasolina.

Não só o tempo não flui ao inverso.
As paisagens e os momentos
Também se perdem, distraídos,
No fluir dos calendários.

Mataram minha infância, meus siris,
Meu encanto e um pedaço do mundo,
Contaminados de estranha forma de câncer,
A que me ensinaram a chamar progresso.

Francisco Costa

Rio, 10/02/2014.

FIM DE ESTIO

Está interrompido o estio.
Derretidas, as nuvens choram no chão
O arrependimento da secura de verão.

Bocarra aberta, o solo se sacia e,
Socialista, reparte com raízes e vermes
A providencial dose de vida.

Os pais das queimadas estão de luto,
Contidos na abstenção dos crimes
De passaricídos e borboletofobia,
Ruminando a alegria da destruição.

As flores que hoje desabrocham
Dispensam sol e insetos, compenetradas
Em matar a sede de semanas.

A flora me diz que anteciparam o domingo.
 Já a fauna não me diz nada, ocupada
Em dançar versos molhados.

O mundo acordou de novo.

Francisco Costa

Rio, 15/02/2014.

ESTIAGEM

(efeito estufa)

Evola-se a esperança e a fé
Junto com água evaporada.

Há silêncio e moscas negras
Em festim de repasto e fome.

Imóveis, as folhas minguam
Na migração do verde, secas.

No leito seco, só cascalho e pó,
O silêncio dos batráquios sós,
Sem coaxares e sem charcos.

Adormecida e com sede,
A natureza sonha pássaros,
Plumas de tons ausentes,
E sons, como antigamente.

Nem neblina, nem orvalho,
Menos chuva ou garoa,
Nada para a sequiosidade
Do chão esturricado, rachado.

Além, as caldeiras a pleno vapor,
As chaminés vomitando fumaça,
O gás carbônico em efusão tóxica,
Nascendo gás, virando dinheiro.

Longe, entre a geladeira
E o ar condicionado
A tevê noticia a cotação da bolsa,
O valor da comoditie, o pregão
De almas em pó desencarnadas.

Francisco Costa

Rio, 08/02/2014.

EU, O DODÓI

Pensa você que é fácil
Nascer riquinho ou quase,
Aturar pais neuróticos
Que nos compram tudo?
E que trazem para casa
O poder que têm na rua,
Nos tratando como coisa,
Simples objeto negociável?

Acredita mesmo, sério,
Que ser inútil é ser feliz,
Com babá nos poupando a mão,
Com papinhas e toddynhos
Na hora certa, a cama feita,
Roupa e toalha no banheiro,
Na hora do banho?

E as refeições, quando escolhemos
Cardápios e horários, na mesa posta
Em tenra idade, sem conhecimento
Do que útil ou necessário, sem
A surpresa da comida inesperada?
Nada mais enfadonho e chato.

E vem a idade da escola, e a escola
É enfadonha, particular, asséptica,
Com bandos de nós, os riquinhos
Sendo preparados para herdar tudo.

Empenho pra quê? Papai paga,
O que garante promoção e elogio.

E vem a adolescência vazia:
Shopping, games, musculação,
Em rotina de dar nos nervos,
Cotidianamente repetitiva,
De retaguarda garantida,
A mesa posta, a cama feita,
Os armários sortidos e cheios.

A vontade é de quebrar o quarto,
Destruir os meus brinquedos,
Dar umas boas porradas em meus pais,
Mas não posso, não devo, não quero.

E então, revoltado com a inutilidade
Da minha própria origem, um burguês
A quem nada nunca foi negado
E nada faltou, despindo-me de vontades,
Resolvo reagir, rompendo em definitivo
Com as amarras que me fazem nada,
Só um consumidor, desde o berço.

Então procuro amigos iguais,
Com o meu mesmo vácuo existencial,
Compro máscara, faço um coquetel
E saio destruindo tudo, queimando tudo,
Por impossibilidade de queimar meu quarto.

Tornei-me um adulto útil e fundamental,
As
sumi o meu ego e minhas vontades,
Eu gora sou um Black Bloc.

Francisco Costa

Rio, 11/02/2014.
Ela tinha o estranho dom
De enfeitar com a presença,
Inundando tudo dela,
Claridade posta onde estava.

Juntos, partilhávamos as horas,
Ora quietos e inúteis, à feição
De ervas campestres na estrada,
Ora em luxúria do que pode tudo,
Reinventando o já sabido,
Inaugurando-nos coisa nova
Estendida nas dobras da noite.

Éramos assim, magia e sonho,
Luminescência vadia
Querendo-se estrela,
Mais que um detalhe na realidade,
Voracidade incansável e diuturna
Elegendo-nos, entre iguais,
Flagrante da diferença.

Mas acabou. Nada se pode eterno,
A permanência é limitada, clama
Por tempos novos de coisas novas,
E o que era fato virou lembrança,
Uma coisa estranha que hoje cato
Em versos, sorrisos e corpos.

Por irrepetível o que se foi,
Essa busca desesperada,
Esse sem fim de poemas,
Todo dia.

Francisco Costa

Rio, 13/02/2014.
Ei de perder-me
Nas trilhas
Das tuas rugas
Como um  dia
Me perdi
Nas trilhas
Das tuas curvas.

A embalagem,
Por perecível,
Gastou.

Mas o conteúdo
É o mesmo,
Escondido
Em rugas
E curvas,
Esperando
Quem se perca
E se encontre.

Francisco Costa

Rio, 09/02/2014.

EU E MEU MENINO

Cerco-me de percalços, deliberadamente,
Fugindo do marasmo que se anuncia chato,
Descabido, afeito a velhinhos de pijamas,
Alisando gatos, curioso do último capítulo
Da novela, do resultado da loteria, do jogo
De ontem, em aguardo da morte próxima.

Recuso-me ao comodismo fácil dos velhos
Despidos da fome de coisas novas, talhadas
Para o dia de amanhã, certo e programado,
Recheado de atividades inusitadas e ações
Interrompidas porque de longo prazo.

Não aprendi do ócio e do descanso, do sono
Fora de hora, quando o dia reclama atos.

Se me ponho na cadeira de balanço, logo
Uma roseira reclama poda, a varanda implora
Vassoura, a água do café ferve no fogo, alguém
Chama no portão, preciso cortar as unhas...
Até o corpo reclamar o aposentar, a inatividade.

É nessa hora que recebo visitas inesperadas,
Multidões de palavras querendo-se ordenadas.

Esquecido do velhinho exausto, desmilinguido,
Chamo o menino que me ajuda e dou a ordem
Para que faça o que não sei mais fazer, esqueci.

Então, quando o dia amanhece, me surpreendo
Com esses poemas surgidos não sei de onde,
Pedindo que eu desvende o que não compreendo.

Há, entre mim e esse menino, uma cumplicidade
De mais de meio século, de tal modo íntimos
Que já não sei mais quem sou eu, morrendo,
E esse menino, permanentemente nascendo.

Francisco Costa

Rio, 14/02/2014.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

DEPRÊ

Vontade de ausência,
Pétala entre pétalas
Em flor silvestre,
Despercebido e só,
Cheirando pra ninguém.

Vazio cósmico
De céu sem garças,
Sem graça e sem sol;
Pingo a mais na chuva,
Pouco e pequeno,
Sem influir na inundação.

Anônimo e calado,
Sem nenhum gesto
Que dê a minha medida,
Um nada inconformado
Em atitude de partida
Solitária, sem despedida.

Francisco Costa

Rio, 05/02/2014.

ÚLTIMA CANÇÃO DO BAILE

Dancemos.
Que importa essa chuva
De minguados pingos
Anunciando aridez amanhã,
O discurso do demagogo,
A última canção de sucesso?

Dancemos por que já lá vai
A noite alta, constelada,
Em fundo de cintilâncias
Fazendo-se lençol pra lua,
Essa vadia amante de poetas,
Bêbados e enamorados.

Dancemos.
Ousemos nossos passos
Em pisar de nuvens
Ou algodão, maciez de lábios
Florescendo vermelhos
Em anúncios inesperados.

Dancemos.
Pouco importam os bandolins,
Se em reticências ou no texto,
Em contraponto de teclas
Nuas e claras, como sorrisos
Amanhecidos em bocas meninas
Se alimentando de espanto.

Dancemos.
Dancemos porque urge
O momento da despedida,
A canção última do baile,
Quando depois, só silêncio
De músicas mortas
E pés cansados.

Dancemos.

Francisco Costa

Rio, 07/02/2014.