sábado, 19 de novembro de 2016

SANGRANDO

Eis que de repente tudo sangra,
Enerva-se vermelha a realidade,
Sangradouro de doces vontades
Escorrendo nos dias presentes.

Sangra o olhar do menino distraído,
Entre o programa social subtraído
E a incerteza se tudo isso passará,
Como passageiro temporal de verão.

Sangra a moça triste na janela,
O velhinho no pijama de flanela,
O amante que em si não cabe
Porque cresceu, apaixonado.

Sangra seiva a árvore posta
Entre o pássaro e o espaço,
Faz-se murcha a florada,
Dispersando besouros e borboletas.

Sangra o oceano e cada rio choroso,
Caminhando, sinuoso, entre pedras
Que choram o choro mudo
Do que sofre inerte, mineral.

Sangra o sol entre nuvens
E as nuvens no arrebol,
Pingando sangue nas cumeeiras,
Espantando as canções chorosas
Das mulheres lavadeiras.

Tudo sangra, sangramos todos,
Feridos de morte, em estertor,
Na espera de que tudo passe
E se faça sorriso o que hoje é dor.

Estocado em sua essência,
Na vocação de ser alegre,
Humilhado e recolhido,
O meu país sangra,
E chora.

Francisco Costa

Rio, 30/07/2016. 

11 DE SETEMBRO

E por palavra outra não merecerem
Eu os chamo corja, não mais.
Maldita seja então a corja,
Os que dilapidam vidas
E as oferecem nuas
No cepo do capital.

Malditos sejam em todo o mundo,
Ordenando matanças em guerras
Ou trabalhando mídias e partidos,
Na consecução de holocaustos
E apocalipses, silenciosamente.

Malditos os que exportam golpes
E financiam a fome, torturam
Explícitos nos quartéis
Ou disfarçados no mercado.

Foi Allende, foi Getúlio, foi Perón,
Foi Jango e agora foi Dilma,
Contas de um rosário de crimes
Ostentando-se incólumes.

Choro o World Trade Center,
Mas não como deveria chorar.
Faltam-me lágrimas,
Eu as gastei no Chile,
Na Argentina, no Uruguai,
No Paraguai, no Brasil,
Em toda a América Latina.

Faltam-me as lágrimas
Que deixei no Iraque e na Síria,
No Afeganistão e na Líbia,
Na Coréia, no Líbano, no Vietnã.

Por isso esse meu choro contido,
Quase envergonhado por chorar.
Vocês deram-me motivos
Para que eu chorasse antes
De que por vocês eu chorasse.

Meus olhos estão secos,
Minhas lágrimas evaporaram-se
No calor dos seus interesses,
No vento das suas vontades.

Assim, o que deveria ser pranto
Reduziu-se, e apenas lastimo,
Certo de que para os poderosos
Foi apenas um erro de cálculo
E não uma lição.

Francisco Costa

Rio, 11/09/2016.