segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

MARISA LETÍCIA

Em pernoite para os poemas
E eles não vêm, indiferentes
Ao que em mim clama e reclama.

Como falar da menina da roça,
Entre manhãs e margaridas,
Bebendo o mundo anunciado?

E dizer da infância abreviada,
Babá de três crianças, pajem
Se criança ainda, brincando
De se fingir adulta e trabalhar?

Aos treze, mal menstruando
Ainda projeto de mulher,
Operária embrulhando bombons,
Na linha de produção do capital.

Logo inspetora de alunos,
Pastora de irrequietos
Apascentando a inquietude
E orientando a disciplina.

E explodiu mulher, hormônios
E umidade exigindo caminhos,
E se descobriu frutificada em si,
Recheada de nova vida vindo,
E constituiu família e futuro,
Sem saber que balas rondavam,
Incubando mais uma viuvez.

Agora esperaria sozinha
O que pensaria criar sozinha,
Até a reunião no sindicato,
O anjo rouco e barbudo,
As mulheres divinizam paixões,
Viúva, viúvo também, juntos,
Casamento de novo, e o povo.

E vieram garras e peçonha,
As algemas e o escuro porão,
Marido preso, incomunicável,
Exigindo a aposentadoria
Da fragilidade, do estar quieta
E veio a passeata das mulheres,
Ela na frente, soltem meu marido,
Entre tanques e cavalaria.

Logo o sindicato era pequeno
E São Paulo era pouco,
Era preciso abarcar tudo
E arrebanhar a todos,
E a gravidez de um novo partido,
Com as mãos que foram da roça,
Acariciaram crianças,
Embrulharam bombons
Tecendo a sua primeira bandeira,
Vermelha, de sangue e coração,
Com estrela maga no centro,
Apontando novo caminho,
Orientando a multidão.

E a estrela tornou-se o marido,
E o marido a estrela, brilhando
Diante dela discreta, acompanhando.

E veio a rampa, o trono, as comendas,
O título de primeira dama
Ornamentando o sorriso doce,
Quase envergonhado, discreto,
E as calúnias, as infâmias, injúrias
Atropelando a dignidade e a alegria
Pondo por terra a possibilidade
De ser feliz e viver com poesia.

Açoitaram-na com a chibata verbal,
Os chicotes digitados
Em tortura televisiva,
Radiofônica, digital,
Imprimindo um acidente vascular
Mais que cerebral, na frágil alma
De corpo agora em coma,
lutando.

Francisco Costa

Rio, 28/01/2017.

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