sábado, 19 de novembro de 2016

Em crise de romantismo,
Presa do que me define carência,
Vergo-me, ansioso, em saudade.

Pronto para me dar urgente,
Purgo-me palavras postas aqui,
Ordenadas versos e ansiedade,
Na impossibilidade de só ser só.

Há em mim algo que incomoda,
Que purga e abate porque parte
Solicitando urgente complemento.

Nada apraz ou redime, define,
Num vazio feito de memória
Reduzida a só uma imagem,
Fixa, encantada, definitiva.

Por onde andará a minha metade,
A porção que espantava o tédio,
Impedia o ócio, impulsionava-me,
Ora doce e manso, ora voraz,
Em fome de refeição última?

De que se tece a saudade
Senão da ausência,
De onde queríamos estar?

A saudade é a porta estreita
Por onde transita o que foi
E o que esperamos voltar,
Atento, na esperança
De que esta porta
Não irá se fechar.

Francisco Costa

Rio, 18/11/2016

AVE NOTURNA

Ela me corrompe com o olhar
E mente com graça,
Oscilando a sua leveza
No espaço que me circunda.

Argumento para eu existir,
Ela insiste quase sobrenatural
Em cada dobra dos momentos,
Embora concreta, dimensional.

Se anoitece no mundo
E tudo se tinge de cor nenhuma
Ela ilumina com sua silhueta
De curvas estampadas
Mostrando-se, sem parcimônia,
Em dádiva aos sentidos atentos,
Amanhecidos da escuridão.

Santa pornográfica,
Ela se redige oração
Entre palavras e sussurros
Ditas entre dentes, suando
Sequências e recomeços,
Ávida e definitiva.

Ave noturna, mal amanhece
Voa e vai no vento,
Sem me dar tempo
De acompanhar.

Francisco Costa

Rio, 12/10/2016.