quinta-feira, 7 de abril de 2016

Absolutamente triste,
Melancólico e encolhido,
Sem espaço para sorrisos,
Inclino-me, envergonhado
Do que em mim não posso.

Havia os pássaros, as cores,
Solares manhãs, mulheres
Alternando-se freqüentes
Entre a brisa praieira
E a algazarra dos meninos,
O fruto mais doce no quintal,
Versos sementes de sonhos.

Agora, taciturno e chato,
Estranho a mim em tédio
Debulho as contas da dor
No rosário do cansaço.

Eu sou aquele no espelho,
No outro lado perdido,
Olhando-me triste,
Pela impossibilidade
De me reencontrar.

Há, entre nós, uma parede,
Vítrea, sólida, absoluta
Apartando-nos dois:
Eu, o que digita;
Ele, o que me espera.

Francisco Costa

Rio, 10/02/2016.

ABELHA RAINHA

De repente, assim,
incólume e consagrada,
surges do nada, enfim.

Aureolada e absoluta vais tomando tudo,
invadindo sem cerimônias e autorização,
contaminando com cheiros e intenções
o que eu supunha antigo e aposentado.

Há em ti qualquer coisa que purga e toma,
submete, absoluta, reduzindo as manhãs
a extensões de ti em veraneio na sala,
exatidão esculpida em carne e olhares.

Como então domar em mim distraído
este dançar enlouquecido e constante,
em torno do teu corpo, abelha rainha
vertendo mel na colmeia devoluta e velha,
habitada por um zangão só de passado,
mastigando o presente, sem futuro?

Pois que fique!
Tenho todas as floradas do mundo,
alguns poemas recheios da espera
e este jeitinho tímido e engraçado
de tem dizer fica.

Fica!

Francisco Costa

Rio, 28/02/2916.