sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O DEMÔNIO NOSSO DE CADA DIA


Mordaz e crítico,
O demônio que me sopra poemas.
Imune a exorcismos,
Está sempre de plantão, insaciável,
Me possuindo.

Tudo é mote para escrita,
Motivo para versejar, automático,
Sem ter como me livrar da desdita
De me fazer obscuro, enigmático.

Cúmplice nas camas,
Comparsa nos palanques,
Sócio nos pensamentos,
É ele que dá o tom
E escolhe as palavras,
Reduzindo-me a olhos e mãos
Digitando a identidade
Com demônios outros
Morando no peito de toda a gente,
De cada um.

Querendo-se importante e diferente,
O meu demônio é trivial, comum.

Francisco Costa

Rio, 30/11/2014.
Dádiva divina acordar do teu lado,
Afogado no odor do teu corpo,
Com a serenidade dos justos,
Distante do resto do mundo.

Como, tendo experimentado,
Não lastimar a tua ausência,
Turbulência no que era calma,
Realização de paz, anestésica
Sensação de voo em manhã clara,
Banhado em espaço e luz?

Agora é o vazio, o nada exposto
Nas horas que transcorrem lentas,
Como se no quarto escuro e triste
O tempo estivesse morto, caído
Entre a cama e as cortinas, alheio,
Em sacrifício ao teu corpo ausente.

Volúpia recolhida, meus olhos,
Janelas para o passado, insistem
Em te ver na cama, recolhida
E abandonada, no sono de depois.

Francisco Costa

Rio, 30/11/2014.