quinta-feira, 3 de abril de 2014

COLETOR DE ESTRELAS

(Pra Sonia Costa, in memoriam)

Hoje vou sair a esmo,
Distraído e desligado,
Para catar estrelas.

Estivesse atento e escolheria,
Mas não, eu as quero ao acaso,
Sem preocupações científicas
De magnitudes, luminosidades,
E todas essas classificações
Que as despem do brilho.

Uma a uma, paciente e calmo,
As colocarei num saco de linho
E as trarei para casa.

Derramarei todas sobre o tapete,
Reconhecendo-as, cada uma,
Em seus sonoros e poéticos nomes:
Andrômeda, sírius, cassiopéia...
Certo de que em algum momento
Pronunciarei o seu nome.

E as devolverei ao céu novamente,
Menos uma, a que procurava.

Francisco Costa

Rio, 29/03/2014.

31 DE MARÇO

Tirania, o teu nome é sevícia, embuste,
Malversação da vida humana
Em holocausto ao deus dinheiro.

Te alimentavas de sangue e com sangue
Erigias fortunas particulares, comissão
Do sangramento internacional
Que administravas a ferro, fogo e lágrimas.

Pródiga em semear prantos maternos
E fabricar órfãos, fizeste do verde
A cor do luto e do medo, da morte
Como princípio, meio e fim.

Aos que ousaram te enfrentar reservaste
Os uivos infernais, o ranger de dentes
Alimentando maníacos de doente selvageria,
Impondo-os seculares dores, sangrando-os
Como à rês retalhada no açougue do mal,
Teus porões de horripilantes covardias,
Ensinadas por teus patrões e proprietários,
Aos quais servias em fluente inglês,
Como os cães vira latas nas sarjetas,
Abanando as caudas a míseras sobras.

Em teus escuros jardins de flora escura
Vicejaram a hipocrisia, o mercantilismo,
O saque puro e simples do que se pretendia
Humano encarnado saciedade e sorrisos.

Percalço no trânsito da felicidade, câncer
Na saúde social, vômito na refeição,
És hoje referência da vergonha e do caos,
Exemplo de quase bíblica mazela,
Peça inútil no museu das inutilidades.

Hoje ainda alguns te são simpáticos
E te clamam pelo teu retorno.
Destes, metade não te conheceu,
E cultua César acreditando Cristo.

Já a outra metade sofre de carência,
A de querer que retornes
Para fazer o que a covardia deles
Não permite que eles mesmos façam.

Francisco Costa

Rio, 29/03/2014