sábado, 3 de maio de 2014

DEMÔNIO NEGRO


Mal nascido, entre carências e sacrifícios,
Carpindo o solo com enxada e infância,
Pés no chão, sob sol e chuva,
Na miséria generalizada que orna esse país,
Bem podias te alçar maior para os teus.

Negro, de negra pele em sociedade branca,
Extensão da escravidão e dos preconceitos,
Só quase único negrinho que deu certo,
Era teu destino fazer-se emblemática lição
De que os teus iguais são iguais a todos.

Mas não, tua alma encardiu ao avesso,
Clarearam-se em ti coração e vontades,
Consciência e até a própria história,
Fazendo-te servil aos algozes dos teus,
Dos meninos que, iguais a ti, carpem o solo
Com enxada e infância, sob sol e chuva,
Eternizando a inferioridade e o preconceito.

E não bastou ser dócil e servil, servente,
Foi preciso mais, e então empunhaste
A bandeira deles, defendendo-os, feroz,
Cuidando de cada um dos interesses deles.

Na calada da noite, no silêncio da conspiração
Tu te reúnes no instituto Millenium,
Departamento da tevê Globo, e teus pares
Conspiram contra a miséria, em golpes,
Tramando a sordidez da exploração,
Prontos a assenhorearem-se do país,
Como se propriedade particular, deles,
Com um negrinho infiltrado, em equívoco,
Pensando fazer parte da elite também.

Logo, a soldo deles ou não, tu cuidaste
De outra lavra, a da política, ceifando perigos
Que se ofereciam a eles, os que gerenciam
O que favorece aos teus, os que esqueceste.

Como um Judas contemporâneo, mentiste,
Entregaste ao cárcere muitos dos nossos,
Os que não querem crianças carpindo
Os descaminhos que os levarão ao nada.

Havia espelhos prontos para te refletir:
Luther King exigindo os direitos dos negros;
Mandela, o Mandiba hóspede de corações
E mentes negras despertadas e lúcidas;
Zumbi, fera fúria rompendo senzalas,
Apontando caminhos, garimpando
Negras gemas de consciência
Em negras pedras duras, órfãs de querer.

Mas não, traidor em último grau,
Tu te fizeste mais um deles,
Simples serviçal, só um servidor,
Escravo voluntário de estranha ideologia,
Onde um homem é propriedade de outro.

Agora, quando racistas e preconceituosos
Atirarem bananas e grunhirem,
Disserem que preto é meio gente,
Ou para não dar poder a pobre,
Que preto quando não caga na entrada
Caga na saída, teus irmãos olharão para ti,
Certos de que eles, a elite, têm em ti
A prova equivocada de que estão certos.

E chorarão ainda por mais algum tempo,
Na esperança de que entre eles nasça um
Que salte da enxada e da infância, e lute
Não pelas cifras que se ostentam
Em bancos e cartórios, assenhoreando-se,
Mas pelos iguais que purgam miséria.

Por instinto sabem que moedas
São de duas faces: cara e coroa,
Jesus e Judas, César e Brutus,
Zumbi e Joaquim Barbosa.

Francisco Costa

Rio, 03/05/2014.

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