segunda-feira, 20 de maio de 2013

QUERÊNCIA


Você me pede
um voto de fidelidade
uma prova de amor.

Pode o sol, brilhando,
dizer “eis que brilho?”
Ou as estrelas na noite,
consteladas-cintilantes
afirmar “nós somos?”

Ao que é está
interdito dizer sou.
Ao que está é
proibido dizer estou.

Para que tenho olhos,
senão para desmentir
o que as vezes falo
ou quase sempre calo?

O meu olhar
e o meu silêncio,
sobretudo o meu silêncio,
são os votos de fidelidade
e as provas do meu amor.

DECEPÇÃO


A traição. Sim, a traição
Mas não a do funcionário
Que depositário da honra
Subtrai sorrateiro e miúdo.

Pior. Não a traição do amigo que,
Diante de situação urgente se furta
A sofrer junto e junto partilhar
Dificuldades e carências, sofrimentos.

Traição pior, muito pior que a do corpo
amado em repasto distante, ausente
nos sussurros do pudor em delito,
nos gemidos da honra fazendo-se nada
e das juras e promessas violentadas.

Traição solerte e baixa, assim como
A do filho que não afaga e respeita
A mão que o alimenta e protege,
Agasalha nas tempestades emocionais.

A traição das mãos solidárias
sobre a cabeça confusa fugindo
do vazio numa explosão de dor
e que agora gesticulam urgentes adeuses.

E da voz aparentemente materna
Outrora, capaz de fechar chagas
E conter hemorragias, de acalentar,
E que agora, mergulhada na falsidade
Se esquece que um dia, cúmplice,
Em aparente sinceridade
Ousou balbuciar: “meu filho”.